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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 82 / 128

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estava completamente absorvida pelo cume - era quase como se estivesse em transe." Desde que saiu do colo sul, deu um duro danado, tentando alcançar o início da fila.

Agora, enquanto Beidleman ainda estava pendurado precaria­mente na rocha, trinta metros acima dos clientes, Yasuko, bastante ansiosa, atrelou seu jumar à corda pendurada antes que o guia tivesse ancorado a outra ponta. Antes que ela pusesse o peso total do corpo na corda - o que teria puxado Beidleman para baixo - Mike Groom interveio, no último minuto, e passou-lhe um pito suave por ser tão impaciente.

O congestionamento nas cordas crescia com a chegada de mais alpinistas, de modo que os últimos iam ficando cada vez mais para trás. A manhã já ia avançada e três clientes de Hall- Stuart Hutchison, John Taske e Lou Kasischke, subindo perto do final da fila, com Hall - começaram a se preocupar com o ritmo moroso. Logo na frente deles estava a equipe taiwanesa, movendo-se com uma lentidão toda espe­cial. "Eles estavam escalando num estilo muito peculiar, realmente colados", diz Hutchison, "quase como fatias de pão, um atrás do outro, ou seja, era quase impossível passá-los. Levamos um tempão esperan­do que subissem as cordas."

No acampamento-base, antes de nossa tentativa de chegar ao cume, Hall havia contemplado dois horários para dar meia-volta - ou às 13h00 ou às 14h00. Porém, nunca declarou qual desses horários deveríamos obedecer - o que era curioso, considerando-se o quanto ele martelara a importância de estabelecer um prazo rígido e obedecê-lo, acontecesse o que acontecesse. Fomos simplesmente informados de modo muito vago que Hall se absteria de tomar uma decisão final até o dia do ataque e que, depois de avaliar as condições do tempo e outros fatores, assumiria a responsabilidade pessoal de mandar todos volta­rem na hora apropriada.

No meio da manhã do dia 10 de maio, Hall ainda não anunciara qual seria o horário para voltar. Hutchison, conservador por natureza, se programara para as 13h00. Por volta das 1lh00, Hall disse a Hutchison e Taske que o topo ainda estava a três horas de distância, e aí correu para tentar passar os taiwaneses. "Parecia cada vez mais improvável que con­seguíssemos chegar ao cume antes da uma da tarde", diz Hutchison. Houve uma rápida discussão. Kasischke a princípio relutou em admitir derrota, porém Taske e Hutchison foram convincentes. Às 11h30, os três deram as costas ao topo e começaram a descer. Hall mandou os sherpas Kami e Lhakpa Chhiri com eles.

Optar por descer deve ter sido uma escolha extremamente difícil para esses três clientes, bem como para Frank Fischbeck, que fizera meia-volta horas antes. O alpinismo costuma atrair homens e mulheres que não abandonam seu objetivo com facilidade. Aquela altura da expedição, todos nos sujeitáramos a níveis de desconfortos e perigos que teriam há muito tempo mandado de volta para casa indivíduos mais equilibrados. Para chegar tão longe, é preciso obstinação.

Infelizmente, o tipo de pessoa que é programada para ignorar des­confortos físicos e para continuar avançando rumo ao topo também é, com freqüência, programada para ignorar os sinais de perigo iminente e grave. Aí está o nó do dilema que todo alpinista no Everest acaba ten­do que enfrentar: para ter sucesso, você precisa estar bastante motiva­do, mas, se a motivação for excessiva, é provável que você morra. Além do mais, acima dos 7900 metros, a linha divisória entre zelo apropria­do e febre desmiolada do topo torna-se perigosamente tênue. Por esse motivo é que as encostas do Everest estão cheias de cadáveres.

Taske, Hutchison, Kasischke e Fischbeck pagaram, cada um, até 70 mil dólares e agüentaram semanas de agonia para terem a possibili­dade de atingir o topo. Todos eram homens ambiciosos, não tinham o costume de perder e muito menos de abandonar algo pela metade. No entanto, confrontados com uma dura decisão, estiveram entre os pou­cos que tomaram a decisão correta naquele dia.

Acima do degrau de rocha onde John, Stuart e Lou deram meia-volta, as cordas fixas acabavam. Desse ponto em diante, a rota subia num ângulo íngreme através de uma graciosa aresta, coberta de neve compacta, que levava ao cume sul - onde eu cheguei às 11h00 e encon­trei um segundo e ainda pior engarrafamento. Um pouco mais alto, apa­rentemente perto, estava a parede quase vertical do escalão Hillary e, um pouco além, o próprio cume. Embotado de cansaço e espanto, tirei algumas fotos, depois me sentei com os guias Andy Harris, Neal Bei­dleman e Anatoli Boukreev à espera dos sherpas para fixar as cordas ao longo daquela crista espetacular, margeada por blocos suspensos de neve.

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