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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 83 / 128

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Reparei que Boukreev, assim como Lopsang, não estava usando oxigênio suplementar. Embora o russo tivesse chegado ao topo do Everest sem ele duas vezes antes, e Lopsang três vezes, eu estava surpreso que Fischer tivesse lhes dado permissão para subirem sem oxigê­nio na qualidade de guias, arriscando a segurança dos clientes. Também fiquei surpreso de ver que Boukreev não levava uma mochila — em geral, um guia carrega uma mochila com cordas, equipamentos de pri­meiros socorros, de resgate em greta, roupas extras e outros itens necessários para assistir os clientes em caso de emergência. Boukreev era o primeiro guia que eu via ignorar essa convenção.

Como fiquei sabendo depois, ele partira do acampamento 4 carre­gando tanto a mochila quanto a garrafa de oxigênio; mais tarde contou-me que, embora não pretendesse usá-la, queria ter uma garrafa à mão no caso de "sua energia acabar" e precisar dela mais perto do pico. No entanto, ao chegar à Balcony, jogou a mochila de lado e deu o cilindro, a máscara e o regulador da garrafa de oxigênio para Beidleman carre­gar. Como não estivesse usando oxigênio suplementar, Boukreev pare­cia tentar reduzir sua carga ao mínimo necessário para obter toda e qualquer vantagem naquele ar incrivelmente rarefeito.

Um vento de vinte nós varria a crista, soprando um tufo de neve para os lados do flanco do Kangshung, porém, mais acima, o céu esta­va inteirinho azul. Descansando ao sol, a 8747 metros de altitude, den­tro de meu grosso traje de penugem de ganso, olhando a paisagem em estupor anóxico, perdi por completo a noção de tempo. Nenhum de nós prestou muita atenção ao fato de que Ang Dorje e Ngawang Norbu, ou­tro sherpa da equipe de Hall, estivessem sentados ao lado, dividindo o chá de uma garrafa térmica e sem nenhuma pressa de ir mais adiante. Por volta das 11h40, Beidleman acabou perguntando: "Ei, Ang Dorje, vocês vão subir para fixar as cordas ou o quê?". A resposta de Ang Dorje foi curta e inequívoca: "Não". Talvez porque nenhum dos sherpas de Fischer tivesse chegado para dividir o trabalho.

Cada vez mais alarmado com a multidão se aglomerando no cume sul, Beidleman acordou Harris e Boukreev do estupor e sugeriu, com veemência, que eles próprios fixassem as cordas; ao ouvir isso, eu logo me ofereci para ajudar. Beidleman pegou um rolo de corda de 45 metros, eu peguei um outro com Ang Dorje e, com Boukreev e Harris, partimos ao meio-dia para fixar as cordas até a crista do topo. Mas, até aí, mais uma hora tinha sido desperdiçada.

O oxigênio engarrafado não torna o topo do Everest parecido com o nível do mar. Escalando acima do cume sul com meu regulador fornecendo menos de dois litros de oxigênio por minuto, eu tinha que parar e dar três ou quatro boas respiradas após cada passo laborioso. Aí dava mais um passo e tinha que parar para mais quatro respiradas ofe­gantes — e esse era o ritmo mais acelerado que eu conseguia manter. Como o sistema de oxigênio que estávamos usando se utilizava de uma mistura magra de gás comprimido e ar ambiente, 8840 metros com oxi­gênio era como estar a mais ou menos 7900 metros sem ele. Porém o oxigênio engarrafado conferia alguns outros benefícios difíceis de quantificar.

Subindo pela lâmina da crista do cume, botando ar engarrafado para dentro dos pulmões rascados, senti uma estranha e inexplicável sensação de paz. O mundo para além da máscara de borracha estava estupendamente vivido, mas não parecia muito real, como se houvesse um filme sendo projetado em câmara lenta em frente à máscara. Eu me sentia drogado, alheio, totalmente isolado de estímulos externos. Ti­nha que me lembrar, a todo momento, que havia 2133 metros de céu de ambos os lados, que ali era tudo ou nada, que eu pagaria com a própria vida por um único passo mal dado.

Meia hora acima do cume sul cheguei ao pé do escalão Hillary. Um dos trechos mais famosos de todo o alpinismo, seus doze metros de rocha e gelo quase verticais pareciam atemorizantes, mas - como todo e qualquer alpinista sério — eu queria, e muito, tomar a ponta da corda e liderar o escalão. Entretanto era óbvio que Boukreev, Beidleman e Harris sentiam a mesma coisa e era ilusão anóxica de minha parte pen­sar que qualquer um deles iria deixar que um cliente usurpasse tão cobi­çada liderança.

No fim, Boukreev - como guia sênior e o único de nós que já escalara o Everest - reivindicou a honra; com Beidleman dando a cor­da, ele liderou com maestria. Contudo, o processo era lento e, enquan­to ele subia penosamente rumo à crista do escalão, eu olhava nervoso o relógio, perguntando a mim mesmo se o oxigênio duraria até lá. Meu primeiro cilindro acabara às 7h00, na Balcony, depois de

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