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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 84 / 128

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umas sete horas. Tendo essa duração como parâmetro, enquanto estava no cume sul calculei que meu segundo cilindro expiraria por volta das 14h00 e, estupidamente, presumira que isso me daria tempo suficiente para atin­gir o topo e retornar ao cume sul para pegar minha terceira garrafa de oxigênio. Só que agora já passava das 13h00 e eu estava começando a ter sérias dúvidas.

No topo do escalão comuniquei minha preocupação a Beidleman e perguntei-lhe se ele se importaria se eu fosse na frente, até o topo, em vez de parar para ajudá-lo a fixar o último rolo de corda pela crista. "Vá em frente", disse-me ele, generoso. "Eu tomo conta das cordas."

Subindo devagar os últimos poucos passos até o topo, eu tinha a sensação de estar debaixo da água, de que a vida se movia a um quarto da velocidade normal. E aí me vi no topo de uma cunha delgada de gelo, adornada com um cilindro usado de oxigênio e uma surrada vara de medição de alumínio, sem ter mais o que subir. Uma fileira de bandei­rinhas budistas agitavam-se ao vento com fúria. Lá embaixo, abaixo do flanco da montanha que eu nunca vira, o ressequido platô tibetano estendia-se pelo horizonte, uma interminável vastidão de terra parda.

Chegar ao topo do Everest supostamente desencadeia uma onda de intensa alegria; apesar de todos os pesares, eu atingira uma meta cobiçada desde a infância. Porém o topo era, na verdade, apenas a meta­de do caminho. Qualquer impulso que eu pudesse ter sentido de auto­congratulação foi eliminado de imediato pela apreensão horrenda que eu sentia diante da longa e perigosa descida que tinha pela frente.

14. Cume 13h12

10 de maio de 1996

8848 m

Não apenas durante a escalada, mas também durante a descida, minha força de vontade fica entorpecida. Quanto mais subo, menos importante me parece ser o alvo, mais indiferente fico a mim mesmo. Minha atenção diminui, minha memória enfraque­ce. Minha fadiga mental é agora maior que a do corpo. É tão bom ficar sentado, sem fazer nada e entretanto tão perigoso. A morte por exaustão como a morte por congelamento é uma morte agradável.

Reinhold Messner

The crystal horizon

Na mochila eu levava uma faixa da revista Outside, uma pequena flâmula na qual Linda, minha mulher, pregara um esdrúxulo lagarto e alguns outros mementos com os quais eu pretendia posar para uma série de fotos triunfais. Porém, sabendo que minha reserva de oxigênio estava baixando cada vez mais, deixei tudo na mochila e fiquei no topo do mundo apenas o tempo suficiente para tirar quatro rápidas fotos de Andy Harris e Anatoli Boukreev, posando na frente da vara de medição do cume. Depois disso virei as costas para descer. Cerca de vinte metros abaixo do cume passei por Neal Beidleman e um cliente de Fischer cha­mado Martin Adams, na direção contrária. Depois de trocar com Neal Beidleman um high-five, um gesto de celebração em que, com os bra­ços estendidos acima da cabeça, as mãos se tocam, peguei um punhado de pequenas pedras de um trecho exposto de xisto, corroído pelo ven­to, pus no bolso, fechei o zíper e me apressei crista abaixo.

Momentos antes eu notara que fiapos de nuvens cobriam agora os vales ao sul, tapando tudo exceto os picos mais altos. Adams — um texano pequeno e batalhador que ficara rico vendendo papéis do governo durante o boom dos anos 80 — é um piloto experiente com várias horas passadas olhando por cima das nuvens; mais tarde ele me disse que, imediatamente após chegar ao cume, reconhecera aqueles chumaços de vapor de água; eram as coroas de robustos cúmulos-­nimbos. "Quando você vê um cúmulo-nimbo do avião", explicou ele, "sua primeira reação é dar o fora dali o mais rápido possível. Foi o que fiz."

Porém, ao contrário de Adams, eu não estava acostumado a espiar por cima de aglomerados de cúmulos-nimbos a 8840 metros de altitu­de e, portanto, continuei ignorando a tempestade que já àquela altura estava se formando. Minhas preocupações giravam em torno do esto­que cada vez menor de oxigênio em meu tanque.

Quinze minutos após ter chegado ao cume atingi o escalão Hillary, onde encontrei um punhado de alpinistas arrastando-se pela única cor­da disponível; minha descida teve uma interrupção forçada.

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