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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 85 / 128

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Enquanto esperava a multidão passar, Andy apareceu. "Jon", ele me pediu, "pare­ce que não estou tendo ar suficiente. Será que pode me dizer se a válvu­la de entrada da máscara está congelada?"

Uma rápida olhada revelou um pedaço do tamanho de um punho fechado de saliva congelada, bloqueando a válvula de borracha que dava passagem ao ar ambiente para dentro da máscara. Quebrei o gelo com a ponta do piolet, depois pedi a Andy que me fizesse um favor em troca, desligando meu regulador para economizar oxigênio até que o escalão ficasse desimpedido. Entretanto ele se enganou, abriu a válvu­la em vez de fechá-la, e dez minutos depois todo meu oxigênio acaba­ra. Minhas funções cognitivas, que já estavam bastante prejudicadas, começaram a declinar muito depressa. Sentia-me como se tivesse tomado uma overdose de algum sedativo poderoso.

Enquanto eu esperava, lembro-me vagamente de Sandy Pittman passando por mim a caminho do topo, seguida, após um tempo indeter­minado, por Charlotte Fox e Lopsang Jangbu. Yasuko apareceu na seqüência, pouco abaixo de minha precária plataforma, mas estava aturdida com o último e íngreme trecho do escalão. Eu observei, impo­tente, durante quinze minutos enquanto ela lutava para se alçar pela parte superior da rocha, exausta demais para conseguir fazê-lo. Enfim Tim Madsen, que estava aguardando impaciente logo atrás, resolveu a questão empurrando-a pelas nádegas até o topo.

Rob Hall apareceu pouco depois. Disfarçando meu pânico cres­cente, agradeci-lhe por ter me posto no topo do Everest. "Pois é, aca­bou sendo uma expedição bem boa", ele disse, e aí mencionou que Frank Fischbeck, Beck Weathers, Lou Kasischke, Stuart Hutchison e John Taske haviam todos dado meia-volta. Mesmo em meu estado de imbecilidade causada pela falta de oxigênio, percebi que Hall estava profundamente decepcionado com o fato de cinco de seus oito clientes terem desistido - um sentimento, suspeito eu, acentuado pelo aparen­te sucesso de toda a turma de Fischer, a caminho do topo. "Eu só gosta­ria de ter podido pôr mais clientes no topo", Rob lamentou, antes de seguir seu caminho.

Logo depois, Adams e Boukreev chegaram, parando bem acima de mim, à espera de que o trânsito amainasse. Um minuto depois, a aglomeração piorou com a chegada de Makalu Gau, Ang Dorje e vários outros sherpas, seguidos por Doug Hansen e Scott Fischer. Aí, por fim, o escalão Hillary ficou livre - mas somente depois de eu ter passado mais de uma hora a 8808 metros de altitude sem oxigênio suplementar.

Àquela altura, setores inteiros do córtex pareciam ter se fechado para sempre. Zonzo, temendo desmaiar, eu estava desesperado para chegar ao cume sul, onde minha terceira garrafa de oxigênio me espera­va. Comecei a descer pelas cordas fixas, rígido de pavor. Pouco abaixo do escalão, Anatoli e Martin passaram por mim e apertaram o passo. Com o máximo de cautela, continuei descendo por aquela verdadeira corda bamba que é a crista; contudo, quinze metros acima de onde esta­va o estoque de oxigênio, a corda acabou e eu empaquei, com medo de ir mais longe sem oxigênio.

Mais adiante, no cume sul, eu podia ver Andy Harris fuçando numa pilha de garrafas de oxigênio cor de laranja. "Ei, Harold!", eu gri­tei. "Será que podia me trazer uma garrafa nova?"

"Não tem oxigênio nenhum por aqui!", o guia gritou de volta. "Essas garrafas estão todas vazias!" Essa era uma notícia perturbado­ra. Meu cérebro gritava por oxigênio. Eu não sabia o que fazer. Bem nesse momento, Mike Groom me alcançou, também já voltando do cume. Mike escalara o Everest em 1993 sem oxigênio suplementar e não parecia muito preocupado com ele. Deu-me sua garrafa de oxigê­nio e mais que depressa chegamos ao cume sul.

Quando chegamos ali, um exame do estoque de oxigênio revelou de imediato que havia pelo menos seis garrafas cheias. Mas Andy recusava-se a acreditar. Continuava insistindo que estavam todas vazias e nada que Mike ou eu disséssemos era capaz de convencê-lo do

contrário.

A única maneira de saber quanto oxigênio resta num cilindro é ajustá-lo no regulador e ler o medidor; presume-se que foi assim que Andy checou as garrafas no cume sul. Depois da expedição, Neal Beidleman disse que se o regulador de Andy tivesse sido prejudicado pelo gelo, o medidor poderia ter marcado vazio ainda que os cilindros esti­vessem cheios, o que explicaria sua bizarra teimosia. E se seu regula­dor estava avariado, não mandaria oxigênio para a máscara, o que tam­bém explicaria a aparente falta de lucidez de Andy.

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