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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 86 / 128

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Entretanto, essa possibilidade - que agora parece tão óbvia - não ocorreu nem a mim nem a Mike, naquele momento. Em retrospec­to, Andy estava agindo de modo irracional e tinha, sem dúvida alguma, ultrapassado e muito a hipoxia de rotina, mas eu estava mentalmente tão embotado que simplesmente não registrei.

Minha incapacidade de discernir o óbvio foi, em certa medida, exacerbada ainda mais pelo protocolo que dita as atitudes entre cliente e guia. Andy e eu éramos muito semelhantes em termos de habilidades físicas e experiência técnica; caso estivéssemos escalando juntos numa situação de igual para igual, como parceiros, é inconcebível que eu tivesse falhado em reconhecer seu estado. Mas nessa expedição ele recebera o papel de guia invencível, estava ali para zelar por mim e pelos outros clientes; fôramos especialmente doutrinados a não ques­tionar o julgamento dos guias. Nunca me passou pela cabeça estropia­da que Andy estivesse de fato numa situação terrível — que um guia pudesse precisar urgentemente de minha ajuda.

Enquanto Andy continuava garantindo que não havia garrafas cheias no cume sul, Mike me deu uma olhada irônica. Olhei de volta para ele e sacudi os ombros. Virando-me para Andy, disse-lhe: "Não tem problema, Harold. Muito barulho por nada". Em seguida, peguei um novo cilindro de oxigênio, atarraxei no meu regulador e continuei a descer a montanha. Tendo-se em vista o que aconteceria nas horas sub­seqüentes, a facilidade com que abdiquei da responsabilidade - meu completo fracasso em supor que Andy podia estar em sérios apuros - foi um lapso que talvez me persiga pelo resto da vida.

Por volta das 15h30 deixei o cume sul na frente de Mike, Yasuko e Andy; quase no mesmo instante mergulhei numa densa camada de nuvens. Começou a nevar de leve. Mal podia ver onde terminava a mon­tanha e onde começava o céu, pois a luz estava cada vez mais fraca; teria sido muito fácil escorregar da beirada da crista e desaparecer para sem­pre. E a situação do tempo só piorou à medida que eu descia o pico.

Ao final dos degraus de rocha da crista sudeste parei com Mike para esperar por Yasuko, que estava tendo dificuldade em avançar pelas cordas fixas. Mike tentou chamar Rob pelo rádio, mas como o transmis­sor estava funcionando apenas de vez em quando, ele não conseguiu achar ninguém. Com Mike cuidando de Yasuko e tanto Rob como Andy acompanhando Doug Hansen — o único outro cliente ainda acima de nós —, imaginei que a situação estivesse sob controle. De modo que, quando Yasuko nos alcançou, pedi permissão a Mike para continuar sozinho. "Tudo bem", ele respondeu. "Só não despenque lá para baixo."

Por volta das 16h45, quando cheguei à Balcony — a plataforma a 8412 metros na crista sudeste de onde eu ficara vendo o sol nascer com Ang Dorje —, tive um choque ao encontrar Beck Weathers, parado sozinho na neve, tremendo violentamente. Para mim, ele já tinha des­cido para o acampamento 4 havia horas. "Beck!", exclamei, "que dia­bo está fazendo aqui?"

Anos antes, Beck sofrera uma intervenção cirúrgica para corrigir sua miopia. (34) Um dos efeitos colaterais da cirurgia, como Beck desco­briu logo no início da escalada do Everest, é que a baixa pressão barométrica, própria das grandes altitudes, prejudica a visão. Quanto mais alto ele subia, menor era a pressão barométrica e, portanto, pior ficava avista.

Na tarde anterior, ao subir do acampamento 3 para o acampamen­to 4, Beck me confessou depois, "minha visão tinha piorado tanto que eu não enxergava mais que uns poucos metros adiante. Então grudei na cola de John Taske e quando ele erguia um pé, eu colocava meu pé direi­to na sua pegada".

Beck falara abertamente de seu problema de vista, no início, mas com o cume assim tão perto, ao alcance da mão, esquecera-se de men­cionar a Rob ou a qualquer outra pessoa que estava piorando cada vez mais. Não obstante a vista ruim, estava escalando bem e sentindo-se mais forte do que jamais estivera desde o começo da expedição. "Eu não queria desistir cedo demais", explicou-me.

Escalando acima do colo sul noite adentro, Beck conseguiu se manter junto ao grupo usando a mesma estratégia da tarde anterior - pisando nas pegadas da pessoa logo à sua frente. Porém, quando che­gou à Balcony e o sol apareceu, percebeu que sua vista estava mais fra­ca que nunca. Para piorar

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