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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 87 / 128

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ainda mais as coisas, ele esfregara sem que­rer alguns cristais de gelo nos olhos, lacerando ambas as córneas.

"Àquela altura", Beck revelou, "um olho estava completamente embaçado, mal podia ver com o outro e perdera toda e qualquer noção de profundidade. Senti que não poderia ver o suficiente para ir adiante sem me pôr em perigo e sem ser um fardo para alguém, de modo que contei a Rob o que estava acontecendo."

"Sinto muito, companheiro", Rob anunciou de imediato, "mas você vai descer. Vou mandar um dos sherpas acompanhá-lo." Mas Beck ainda não estava preparado para desistir de sua esperança de alcançar o cume: "Expliquei a Rob que eu achava que a vista tinha boa chance de melhorar assim que o sol subisse mais um pouco e minhas pupilas se contraíssem. Disse que queria esperar mais um pouco e depois, se começasse a enxergar melhor, seguir em frente".

Rob pensou na proposta de Beck e em seguida decidiu. "Certo, é justo. Dou-lhe meia hora para descobrir se está ou não melhor. Mas não posso permitir que desça para o acampamento 4 sozinho. Se sua vista não melhorar em trinta minutos, quero que fique aqui para que eu possa saber exatamente onde você está quando descer do topo, e então vamos juntos. Isso é muito sério: ou você desce agora mesmo, ou você promete que vai ficar aqui até eu voltar."

"Fiz o sinal da cruz e torci", Beck me disse, de bom humor, debai­xo da neve, com a luz já rareando. "E cumpri minha palavra. Por isso ainda estou aqui parado."

Pouco depois do meio-dia, Stuart Hutchison, John Taske e Lou Kasischke haviam passado a caminho do acampamento 4, acompanha­dos por Lhakpa e Kami, mas Weathers preferiu não os acompanhar. "O tempo continuava bom", ele explica, "e eu não vi motivo para quebrar a promessa que fizera a Rob àquela altura."

Agora, contudo, estava escurecendo e as condições do tempo começavam a ficar sombrias. "Desça comigo", implorei. "Ainda devem faltar pelo menos mais duas ou três horas para Rob aparecer. Eu serei os seus olhos. Levo você para baixo, não tem problema." Beck estava quase convencido a descer comigo, quando eu cometi o erro de mencionar que Mike Groom estava a caminho, com Yasuko, alguns minutos atrás de mim. Num dia de muitos erros, este acabaria sendo um dos maiores.

"Obrigado, de qualquer forma", Beck disse. "Acho que vou espe­rar por Mike. Ele tem uma corda; pode me puxar até lá."

"Certo, Beck", respondi. "Você é quem manda. Então, até o acam­pamento." Por dentro, estava aliviado por não ter que cuidar de Beck nas encostas problemáticas ainda por vir, a maioria delas sem a proteção de uma corda fixa. A luz do dia estava sumindo, o tempo piorando, minhas reservas de força estavam quase no fim. Ainda assim não tive nenhum pressentimento de que havia uma catástrofe se aproximando. De fato, depois de conversar com Beck eu inclusive passei um certo tempo tentando achar o cilindro usado de oxigênio que eu enterrara na neve a caminho do topo, umas dez horas antes. Querendo remover todo meu lixo da montanha, enfiei o cilindro dentro da mochila, junto com os outros dois (um vazio, um parcialmente cheio) e depois me apressei em alcançar o colo sul, 487 metros abaixo.

Da Balcony, desci sem incidentes um trecho de mais ou menos duzentos metros por uma vala larga e suave de neve, mas depois as coi­sas começaram a ficar pretas. A rota serpenteava por afloramentos de xisto fragmentado cobertos por quinze centímetros de neve fresca. Atravessar aquele terreno exigia concentração, feito quase impossível para alguém naquele estado embotado.

Como o vento tivesse apagado as pegadas dos alpinistas que des­ceram antes de mim, eu tinha dificuldade em determinar a rota correta. Em 1993, o parceiro de Mike Groom — Lopsang Tshering Bhutia, experiente alpinista do Everest e sobrinho de Tenzing Norgay - toma­ra um atalho errado nessa área, caíra e morrera. Lutando para manter um pé na realidade, comecei a falar sozinho em voz alta. "Não dê bobei­ra agora, não dê bobeira agora, não dê bobeira agora", eu entoava, vezes e vezes, como se fosse um mantra. "Você não pode foder tudo aqui em cima. Isto é muito sério. Não dê bobeira."

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