X hits on this document

Word document

o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 88 / 128

503 views

0 shares

1 downloads

0 comments

88 / 128

Sentei para descansar numa plataforma larga, inclinada, mas após alguns minutos veio um BUM! ensurdecedor, o suficiente para me pôr de pé novamente. Havia tanta neve fresca acumulada que eu temi tra­tar-se de uma avalanche vindo das encostas acima, mas quando me virei não vi nada. Em seguida veio outro BUM!, acompanhado por um raio que iluminou por um momento o céu inteiro; então percebi que estava ouvindo o estouro de um trovão.

De manhã, a caminho do topo, eu fizera todo o possível para estu­dar continuamente a rota nessa parte da montanha, olhando para baixo com freqüência a fim de localizar marcos que me seriam úteis na descida, memorizando o terreno de modo compulsivo: "Lembre-se de virar à esquerda naquele rochedo que parece a proa de um navio. Aí, siga pela linha fininha de neve até que ela faça uma curva fechada para a direita". Isso era algo que eu me condicionara a fazer muitos anos antes, um exercício que eu me obrigava a fazer toda vez que escalava e, no Everest, pode ter sido o que salvou minha vida. Por volta das 18h00, à medida que a tempestade se acentuava, com neve forte e rajadas de vento de mais de sessenta nós, cheguei à corda que fora fixada pelos montenegrinos na encosta de neve, 182 metros acima do colo sul. Já um pouco mais sensato devido à violência da tempestade, percebi que aca­bara de descer o trecho mais perigoso bem a tempo.

Enrolando a corda fixa em volta dos braços para fazer o rappel, continuei descendo em meio à nevasca. Alguns minutos depois, fui tomado por uma desagradável e familiar sensação de sufocação, ao perceber que minha garrafa de oxigênio acabara de novo. Três horas antes, quando enrasquei o regulador no terceiro e último cilindro de oxigênio, reparei que estava pela metade. Contudo, achava que daria para descer boa parte do caminho, de modo que não me preocupei em trocá-lo por um cheio. E agora o oxigênio acabara.

Tirei a máscara do rosto, deixando-a pendurada no pescoço, e con­tinuei em frente despreocupado, para minha própria surpresa. Entre­tanto, sem o oxigênio suplementar, eu me movia mais devagar e tinha que parar e descansar com mais freqüência.

A literatura sobre o Everest é cheia de relatos de experiências alu­cinatórias, atribuíveis à hipoxia e à fadiga. Em 1933, o famoso alpinis­ta inglês Frank Smythe observou "dois objetos curiosos flutuando no céu" diretamente acima dele, aos 8230 metros: "[Um] possuía o que pareciam ser asas atrofiadas, não desenvolvidas, e o outro uma protu­berância que sugeria um bico. Eles ficaram parados, imóveis, mas pare­ciam vibrar lentamente". Em 1980, durante sua escalada solo, Rein­hold Messner imaginou que havia um companheiro invisível escalando a seu lado. Aos poucos me dei conta de que minha mente também esta­va atordoada e observei, com um misto de fascínio e horror, a mim mes­mo escorregando para fora da realidade.

Eu estava tão além da exaustão comum que experimentei um estranho distanciamento de meu corpo, como se estivesse observando minha descida de alguns metros acima. Imaginei estar vestido com um cardigã verde e calçado com sapatos do tipo wing-tips, com a ponta e o calcanhar virados para cima. E embora o vendaval estivesse gerando um fator vento que baixava a temperatura a quase -60 °C, eu me sentia estranha e perturbadoramente aquecido.

Às 18h30, quando as últimas luzes do dia desapareceram do céu, eu estava a sessenta metros verticais do acampamento 4. Agora havia apenas mais um obstáculo entre mim e a segurança: uma saliência incli­nada de gelo duro, brilhante, que eu teria que descer sem corda. Pelotas de neve trazidas por rajadas de vento de até setenta nós fustigavam-me o rosto; qualquer pedaço de carne exposto congelava imediatamente. As barracas, a menos de duzentos metros horizontais dali, apareciam e desapareciam em meio àquele manto branco. Não havia margem para enganos. Preocupado em não cometer nenhum erro crítico, sentei-me para recuperar um pouco de energia antes de descer mais.

Assim que me pus de pé, a inércia tomou conta de mim. Era muito mais fácil permanecer em repouso do que tomar a iniciativa de atacar o perigoso declive de gelo, de modo que fiquei ali sentado, enquanto a tempestade rugia a minha volta, deixando a mente vagar, sem fazer nada durante talvez uns 45 minutos.

Eu apertara os cordões do capuz até não ficar nada de fora, exceto um pequeno buraco para os olhos; estava removendo a máscara inútil e congelada de sob o queixo, quando Andy Harris surgiu de repente do escuro, bem do meu lado. Ao focalizar minha lanterna frontal em sua direção, recuei por puro reflexo

Document info
Document views503
Page views631
Page last viewedTue Dec 06 16:26:54 UTC 2016
Pages128
Paragraphs1519
Words87495

Comments