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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 89 / 128

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ao ver o estado apavorante de seu ros­to. Suas bochechas estavam cobertas com uma armadura de gelo, um olho congelara e fechara; ele mal podia falar. Parecia estar em sérios apuros. "Qual o caminho das barracas?", Andy perguntou, frenético para chegar até os abrigos.

Apontei para a direção do acampamento 4, depois o avisei sobre o gelo logo abaixo de nós. "É mais íngreme do que parece!", gritei, num esforço para ser ouvido por cima da tempestade. "Talvez eu devesse ir na frente e pegar uma corda no acampamento..." Eu estava no meio da frase quando Andy afastou-se de repente, em direção à borda do decli­ve de gelo, deixando-me ali sentado falando sozinho.

Feito doido, começou a descer a parte mais empinada da inclina­ção. "Andy", gritei, "é loucura ir desse jeito! Você vai fazer besteira!" Ele gritou algo de volta, porém suas palavras foram levadas pelo vento que rugia. Um segundo depois perdeu o pé, deu uma cambalhota e de repente estava despencando pelo gelo.

Logo mais, sessenta metros abaixo, pude distinguir a silhueta imóvel de Andy esborrachada no pé do declive. Tinha certeza que que­brara pelo menos uma perna, talvez até o pescoço. Mas então, inacreditavelmente, ele se levantou, acenou que estava bem e caminhou em direção ao acampamento 4, que, naquele momento, estava em plena vista, 150 metros adiante.

Eu podia ver a sombra de três ou quatro pessoas de pé, do lado de fora das barracas; suas lanternas frontais tremulavam em meio a corti­nas de neve. Vi Harris andando em direção a elas pelo terreno plano, uma distância que ele percorreu em quinze minutos. Quando as nuvens se fecharam, momentos depois, cortando minha vista, ele estava a dezoito metros, talvez menos, das barracas. Não o vi mais depois dis­so, mas tinha certeza de que chegara à segurança do acampamento, onde Chuldum e Arita estariam, sem dúvida, esperando com chá quen­te. Sentado debaixo da tempestade, com a saliência de gelo entre mim e as barracas, senti uma pontada de inveja. E estava bravo porque meu guia não esperara por mim.

Minha mochila continha pouca coisa mais além dos três cilindros vazios de oxigênio e de meio litro de limonada congelada; devia estar pesando no máximo oito ou nove quilos. Como eu estava cansado e preocupado com a possibilidade de quebrar uma perna naquele decli­ve, joguei a mochila lá para baixo e esperei que parasse em algum lugar onde pudesse reavê-la. Em seguida levantei-me e comecei a descer pelo gelo, que estava liso e duro como a superfície de uma bola de bilhar.

Quinze minutos de trabalho arriscado e fatigante com os gram­pões e eu estava lá embaixo, a salvo, onde logo localizei minha mochi­la. Mais dez minutos e eu estava no acampamento. Entrei correndo em minha barraca, ainda com os grampões, fechei o zíper até o fim e espar­ramei-me no chão coberto por uma camada de gelo fino, cansado demais até mesmo para me sentar. Pela primeira vez tive uma idéia do quão esgotado eu estava: eu nunca estivera tão exausto em toda minha vida. Porém estava a salvo. Andy estava a salvo. Os outros desceriam logo mais até o acampamento. Nós tínhamos conseguido. Nós escala­mos o Everest. Tinha sido meio confuso lá em cima, por uns momen­tos, mas no fim tudo acabou dando certo.

Ainda seriam necessárias muitas horas até que eu ficasse sabendo que, na verdade, nada acabou dando certo - que dezenove homens e mulheres estavam presos na montanha, sob a tempestade, numa luta desesperada para salvar suas vidas.

15. Cume

13h25

10 de maio de 1996

8848 m

O perigo de aventuras e vendavais apresenta muitos matizes, mas só de vez em quando é que aparece, na face dos acontecimentos, uma violência sinistra de intenções - aquele algo indefinível que se impõe na mente e no coração do homem e lhe diz que esse ema­ranhado de acidentes ou essas fúrias elementares estão vindo contra ele com propósitos malignos, com uma força além de qualquer controle, com uma crueldade desabrida que significa arrancar-lhe a esperança e o medo, a dor de seu cansaço e seu desejo de descanso: que significa esmagar, destruir, aniquilar tudo aquilo que ele viu, soube, amou, gozou ou odiou; tudo que não tem preço e é necessário a luz do sol, as memórias, o futu­ro; que significa varrer todo o precioso mundo totalmente para

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