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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 90 / 128

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fora de sua visão pelo simples e tenebroso ato de tirar-lhe a vida.

Joseph Conrad

Lord Jim

Neal Beidleman alcançou o cume às 13h25, com o cliente Martin Adams. Quando eles chegaram lá, Andy Harris e Anatoli Boukreev já estavam no topo: eu partira oito minutos antes. Presumindo que o res­tante da equipe estaria aparecendo em pouco tempo, Beidleman tirou umas fotos, fez umas brincadeiras com Boukreev e sentou-se para esperar. Às 13h45, o cliente Klev Schoening galgou a subida final, sacou uma foto da mulher e dos filhos e começou uma comemoração chorosa de sua chegada ao topo do mundo.

Do cume, uma saliência na crista bloqueia a visão do restante da rota e por volta das 14h00 - a hora designada para a volta - ainda não havia nenhum sinal de Fischer nem dos outros clientes. Beidleman começou a ficar preocupado com o adiantado da hora.

Engenheiro aeroespacial por formação, 36 anos, Beidleman era um guia calado, cuidadoso e extremamente consciencioso, muito que­rido da maioria dos integrantes de sua equipe bem como da equipe de Hall. Beidleman era também um dos melhores alpinistas presentes no Everest em 1996. Dois anos antes ele e Boukreev — a quem considera­va um bom amigo - escalaram os 8480 metros do Makalu juntos, em tempo quase recorde, sem oxigênio suplementar nem apoio dos sher­pas. Conhecera Fischer e Hall nas encostas do K2, em 1992, ocasião em que sua competência e conduta serena causaram ótima impressão nos dois. Porém, como a experiência de Beidleman em grandes altitudes fosse de certa maneira limitada (o Makalu fora o único pico alcançado no Himalaia), seu posto na hierarquia de comando da Mountain Mad­ness era abaixo de Fischer e Boukreev. E seu salário refletia essa posi­ção júnior: ele concordara em servir de guia ao Everest por 10 mil dóla­res, ao passo que Fischer pagou a Boukreev 25 mil dólares.

Beidleman, sensível por natureza, estava plenamente consciente de seu lugar na pirâmide social da expedição. "Eu era considerado o ter­ceiro guia", admitiu depois, "de modo que tentei não me meter muito. Portanto, nem sempre me pronunciava nos momentos em que, talvez, devesse ter dito alguma coisa e agora me censuro por isso."

Beidleman disse que, segundo o plano vagamente enunciado por Fischer para o dia do ataque ao cume, Lopsang Jangbu deveria encabe­çar a fila, levando um rádio e dois rolos de corda para instalar à frente dos clientes; Boukreev e Beidleman — nenhum dos quais recebera um rádio - deveriam ficar "no meio ou perto da frente, dependendo do rit­mo em que os clientes estivessem se mexendo; e Scott, levando um segundo rádio, faria a 'varreção'. Por sugestão de Rob, decidimos esta­belecer a hora da volta para as duas da tarde: quem não estivesse bem próximo do topo às duas da tarde teria que dar meia-volta e descer".

"Scott deveria fazer essa parte, mandar os clientes descerem", Beidleman explicou. "Conversamos sobre isso. Eu lhe disse que, na qualidade de terceiro guia, não me sentia muito à vontade de dizer a clientes que haviam pago 65 mil dólares que teriam de voltar. Assim, Scott concordou que essa responsabilidade ficaria com ele. Mas por algum motivo isso não aconteceu." Na verdade, as únicas pessoas a atingirem o pico antes das 14h00 foram Boukreev, Harris, Beidleman, Adams, Schoening e eu; se Fischer e Hall tivessem sido fiéis às regras preestabelecidas, todos os demais teriam voltado antes de chegar ao topo.

Apesar da preocupação crescente de Beidleman sobre o adianta­do da hora, ele não tinha um rádio, de modo que não havia como discu­tir a situação com Fischer. Lopsang - que tinha um rádio - continua­va em algum lugar, fora da vista, mais abaixo. No começo daquela manhã, quando Beidleman encontrou Lopsang na Balcony, vomitando entre os joelhos, pegara os dois rolos de corda do sherpa para fixar nos íngremes degraus de rocha mais adiante. Mais tarde lamentou-se: "Nem me passou pela cabeça pegar o rádio também".

A conseqüência, recorda Beidleman, "foi que eu acabei ficando sentado lá no cume por um tempão, olhando o relógio, esperando Scott aparecer e pensando em começar a descida - mas toda vez que eu me levantava para ir embora, mais um de nossos clientes despontava no topo da crista e eu sentava de volta, para esperá-lo".

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