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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 91 / 128

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Sandy Pittman apareceu no trecho final do cume por volta das 14hl0, ligeiramente à frente de Charlotte Fox, Lopsang Jangbu, Tim Madsen e Lene Gammelgaard. Pittman estava indo muito devagar e pouco abaixo do cume ela de repente caiu de joelhos na neve. Quando Lopsang foi ajudá-la, descobriu que seu terceiro cilindro de oxigênio acabara. De madrugada, quando começou a puxar Sandy Pittman, Lopsang abrira o fluxo de oxigênio no máximo - quatro litros por minuto - e, em conseqüência disso, ela usara todas as suas reservas em um tempo relativamente curto. Por sorte, Lopsang - que não estava usan­do oxigênio - carregava uma garrafa na mochila. Ele ajustou a másca­ra e o regulador de Sandy ao novo cilindro, em seguida os dois subiram os últimos metros até o topo, tomando parte nas comemorações.

Rob Hall, Mike Groom e Yasuko Namba também alcançaram o cume por volta dessa hora e Hall transmitiu por rádio uma mensagem a Helen Wilton, no acampamento-base, dando-lhe a boa notícia. "Rob disse que estava frio e ventando por lá", Wilton contou depois, "mas me parecia bem. Ele disse, 'Doug está quase aparecendo no horizonte; depois disso vou começar a descida. [...] Se não tiver mais notícias de mim, significa que está tudo bem'." Helen Wilton comunicou o fato ao escritório da Adventure Consultants, na Nova Zelândia, e de lá saíram vários fax a amigos e familiares em todo o mundo, anunciando o apo­geu triunfante da expedição.

Todavia, Doug Hansen não estava logo abaixo do cume nessa altu­ra, como Hall pensava, nem Fischer. Fischer na verdade chegou ao cume às 15h40 e Hansen não chegaria lá antes das 16h00.

Na tarde anterior - quinta-feira, 9 de maio -, quando todos nós subimos do acampamento 3 para o acampamento 4, Fischer só alcan­çou as barracas no colo sul por volta das 17h00 e parecia estar bastante cansado quando chegou, embora tenha feito o possível para esconder sua fadiga dos clientes. "Aquela noite", lembra-se sua companheira de barraca, Charlotte Fox, "eu não saberia dizer se Scott estava doente. Agia como um treinador de futebol antes do grande jogo, levantando o moral de todo mundo."

A verdade é que Fischer estava exausto devido às tensões físicas e mentais das semanas anteriores. Embora possuísse uma extraordinária reserva de energia, esbanjara tais reservas e, quando chegou ao acam­pamento 4, elas estavam quase esgotadas. "Scott é um sujeito forte", Boukreev reconheceu, depois da expedição, "mas antes do ataque, ele estava cansado, cheio de problemas; gastou muita energia. Preocu­pação, preocupação, preocupação. Scott estava nervoso, mas guardava tudo consigo."

Fischer também escondeu de todo mundo o fato de que podia estar com problemas durante o ataque ao cume. Em 1984, durante uma expe­dição ao maciço Annapurna, no Nepal, contraíra uma misteriosa doen­ça que degenerara num problema crônico de fígado. Nos anos seguintes, consultara inúmeros médicos e passara por uma bateria de exames, mas não houve um diagnóstico definitivo. Fischer se referia a seu mal sim­plesmente como um "cisto no fígado", contava a muito poucas pessoas a respeito e tentava fingir que não havia nada com que se preocupar.

"Fosse lá o que fosse", diz Jane Bromet, uma das poucas pessoas íntimas de Fischer que sabiam da doença, "ela provocava sintomas parecidos com os da malária, ainda que não fosse malária. Ele tinha cri­ses de tremedeira e suava muito. As crises o deixavam bem mal, mas duravam apenas dez ou quinze minutos, depois passavam. Em Seattle ele tinha ataques talvez uma ou duas vezes por semana, mas quando estava estressado, ocorriam com mais freqüência. No acampamento-base ele estava tendo mais vezes — dia sim, dia não, algumas vezes todos os dias."

Se Fischer teve esses ataques no acampamento 4 ou acima, nunca mencionou a ninguém. Charlotte Fox contou que, logo depois que entrou na barraca, na quinta-feira à noite, "Scott apagou e dormiu pro­fundamente por umas duas horas". Quando acordou, às 22h00, demo­rou para se aprontar e saiu do acampamento bem depois que seus últi­mos clientes, guias e sherpas.

Não se sabe ao certo a que horas Fischer de fato saiu do acampa­mento 4; talvez até lá pela uma hora da madrugada de sexta-feira, 10 de maio. Ele se arrastou bem atrás de todo mundo durante boa parte do dia e só foi chegar ao cume sul por volta das 13h00. Eu o vi pela primeira vez por volta das 14h45, quando descia do cume, enquanto esperava no escalão Hillary com Andy Harris até que a multidão passasse. Fischer foi o último alpinista a subir pela corda e parecia bem desgastado.

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