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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 92 / 128

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Depois de trocarmos amabilidades, ele falou rapidamente com Martin Adams e Anatoli Boukreev, que estavam esperando logo acima de nós para descer o escalão. "E aí, Martin", Fischer caçoou, por trás da máscara de oxigênio, tentando fingir um tom brincalhão. "Você acha que consegue escalar o monte Everest?"

"Ei, Scott", Adams retrucou, parecendo meio irritado porque Fis­cher não lhe dera os parabéns, "acabei de escalá-lo."

Em seguida, Fischer trocou algumas palavras com Boukreev. Segundo a lembrança que Adams tem da conversa, Boukreev disse a Fischer: "Eu vou descer com Martin". Depois Fischer continuou penosamente rumo ao topo, enquanto Harris, Boukreev, Adams e eu nos pre­parávamos para fazer o rappel pelas cordas fixas do escalão Hillary. Ninguém comentou a aparência exausta de Fischer. Não ocorreu a nenhum de nós que ele pudesse estar com algum problema.

Às 15h10 da sexta-feira Fischer ainda não chegara ao topo, diz Beidleman, acrescentando: "Decidi que era hora de dar o fora dali, mesmo que Scott ainda não tivesse aparecido". Juntei Sandy Pittman, Gammelgaard, Fox e Madsen e comecei a guiá-los pela crista do cume. Vinte minutos depois, logo acima do escalão Hillary, eles cruzaram com Fischer. "Não cheguei a conversar com ele", Beidleman relembra. "Ele apenas ergueu um pouco a mão. Parecia estar tendo dificuldade, mas ele era o Scott, de modo que não fiquei especialmente preocupado. Imaginei que bateria no cume e que nos alcançaria bem depressa, para ajudar a descer os clientes."

A principal preocupação de Beidleman, naquele momento, era Sandy Pittman: "Todo mundo estava em péssimo estado, àquelas altu­ras, mas Sandy, em particular, parecia abalada. Achei que, se não ficas­se realmente de olho nela, haveria uma boa chance de que despencasse da crista. De modo que fiz questão de verificar o tempo todo se ela esta­va atrelada às cordas fixas e, nos lugares onde não havia corda, eu pega­va a cadeirinha dela por trás e segurava firme até que pudesse engatar na próxima seção de corda. Ela estava tão desligada de tudo que eu nem sei se percebia que eu estava ali".

Um pouco abaixo do cume sul, à medida que os alpinistas iam penetrando no meio de nuvens densas e neve, Sandy Pittman caiu de novo e pediu a Charlotte Fox para lhe dar uma injeção com um potente esteróide chamado dexametasona. O "dex", como costuma ser chama­do, pode temporariamente cancelar os efeitos deletérios da altitude; cada integrante da equipe de Fischer levava uma seringa já preparada com a droga, num estojo de plástico de escova de dente, dentro do tra­je de penugem de ganso, onde não congelaria, para emergências. "Pu­xei um pouco a calça de Sandy", lembra-se Charlotte Fox, "e enfiei a agulha em seu quadril, por cima da ceroula e tudo o mais."

Beidleman, que se demorara no cume sul para inventariar o oxigê­nio, chegou ao local bem na hora em que Charlotte Fox estava enfian­do a seringa em Sandy Pittman, estirada de bruços na neve. "Quando me aproximei e vi Sandy deitada ali, com Charlotte de pé sobre ela, agi­tando uma agulha hipodérmica, pensei, 'Puta merda, isso está indo mal'. Aí perguntei a Sandy o que estava havendo e quando ela tentou responder, tudo que saiu de sua boca foi um emaranhado sem nexo." Extremamente preocupado, Beidleman ordenou que Gammelgaard trocasse seu cilindro de oxigênio quase cheio com a garrafa quase vazia de Pittman, certificou-se de que o regulador estava em fluxo máximo, depois agarrou-a pela cadeirinha, em estado semi-comatoso, e come­çou a arrastá-la pela neve íngreme da crista sudeste. "Assim que ela começava a deslizar", explica, "eu soltava e deslizava na frente dela. A cada cinqüenta metros eu parava, passava as mãos em volta da corda fixa e me preparava para pará-la com o corpo. A primeira vez que Sandy bateu em mim, as pontas dos grampões dela rasgaram minha calça. Foi pena voando para tudo quanto é lado." Para alívio de todos, cerca de vinte minutos depois, a injeção e o oxigênio extra reanimaram Pittman e ela foi capaz de retomar a descida por conta própria.

Por volta das 17h00, enquanto Beidleman acompanhava seus clientes crista abaixo, Mike Groom e Yasuko Namba estavam chegan­do à Balcony, a uns 150 metros mais para baixo. Dessa plataforma, a 8412 metros, a rota dá uma guinada abrupta para o sul, rumo ao acam­pamento 4. Quando Groom olhou para o outro lado, porém — para o lado norte da crista — viu, através das rajadas de neve e da pouca luz, um alpinista sozinho, completamente fora da rota: era Martin Adams, que se desorientara na tempestade e estava começando a descer o flan­co do Kangshung, rumo ao Tibete.

Assim que Adams viu Groom e Yasuko acima dele, percebeu o erro e diminuiu o ritmo. "Martin estava

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