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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 93 / 128

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fora de sintonia quando chegou até nós", lembra-se Groom. "Sua máscara de oxigênio estava desliga­da e a cara coberta de neve. Ele me perguntou: 'Qual a direção das bar­racas?'." Mike Groom apontou e Adams logo se pôs a caminho, pelo lado correto da crista, seguindo a trilha que eu marcara uns dez minu­tos antes, talvez.

Enquanto Groom esperava até que Adams escalasse de volta a crista, mandou Yasuko Namba descer na frente e foi procurar o estojo da máquina fotográfica que deixara ali na subida. Enquanto olhava em volta, reparou, pela primeira vez, que havia mais uma pessoa com ele. "Como ele estava meio que camuflado pela neve, pensei que fosse do grupo de Fischer e ignorei-o. De repente, essa pessoa estava parada na minha frente dizendo: 'Oi, Mike', e então percebi que era Beck."

Groom, tão surpreso de ver Beck ali quanto eu ficara, pegou a cor­da e começou a puxar o texano em direção ao colo sul. "Beck estava tão cego", conta Groom, "que a cada dez metros ele dava um passo no ar e eu tinha que agarrá-lo com a corda. Fiquei com medo, muitas vezes, de que ele me levasse junto. Meus nervos estavam em frangalhos. Eu ti­nha que ter certeza de ter um bom local para dar segurança com o pio­let, precisava ter todas as pontas dos grampões limpas e enterradas em algo sólido o tempo todo."

Um a um, seguindo as pegadas que eu deixara havia quinze ou vinte minutos, Beidleman e os clientes restantes de Fischer atravessa­ram o pior na nevasca. Adams estava atrás de mim, na frente dos outros; depois vinham Yasuko Namba, Mike Groom e Beck Weathers, Schoe­ning e Gammelgaard, Beidleman e, por fim, Sandy Pittman, Charlotte Fox e Tim Madsen.

A 150 metros acima do colo sul, onde o xisto empinado cede lugar a uma encosta mais suave de neve, o oxigênio de Yasuko Namba aca­bou e a minúscula japonesa sentou-se, recusando-se a se mexer. "Quan­do tentei tirar a máscara de oxigênio para que ela pudesse respirar mais à vontade", diz Groom, "ela insistiu em colocá-la imediatamente de volta. Não houve o que a fizesse acreditar que seu oxigênio acabara, que a máscara na verdade estava ajudando a sufocá-la. A essa altura, Beck havia enfraquecido tanto que não conseguia mais andar sozinho e eu tinha que apoiá-lo no ombro. Por sorte, bem nessa hora Beidleman nos alcançou." Beidleman, vendo que Groom já estava sobrecarregado com Weathers, começou a arrastar Yasuko Namba até o acampamento 4, ainda que ela não estivesse na equipe de Fischer.

Eram agora umas 18h45 e já estava quase escuro. Beidleman, Groom, seus clientes e dois sherpas da equipe de Fischer que, tardiamen­te, haviam se materializado no nevoeiro — Tashi Tshering e Ngawang Dorje — formaram um único grupo. Embora estivessem se deslocando devagar, estavam a sessenta metros verticais do acampamento 4. Naque­le momento eu estava acabando de chegar às barracas - talvez não mais que quinze minutos adiante dos primeiros integrantes do grupo de Beidleman. Mas naquele brevíssimo período de tempo a tempestade se convertera repentinamente em um furacão de extrema violência; a visi­bilidade não ia além dos seis metros.

Querendo evitar o perigoso declive de gelo, Beidleman levou o grupo por uma rota indireta, que fazia uma volta bem para leste, onde a encosta era menos íngreme e, às 19h30, alcançaram em segurança o ter­reno amplo e de suave inclinação do colo sul. Nessa altura, entretanto, apenas três ou quatro pessoas ainda tinham pilhas boas nas lanternas frontais, estando todos à beira de um colapso físico. Charlotte Fox dependia cada vez mais do auxílio de Madsen. Weathers e Namba não conseguiam mais andar sem o apoio de Groom e Beidleman, respecti­vamente.

Beidleman sabia que estava no lado oriental, tibetano, do colo sul e que as barracas ficavam em algum lugar a oeste. Porém, para se loco­mover naquela direção, era necessário caminhar contra o vento, no pior da tempestade. Grãos de neve e gelo, açulados pelo vento, batiam no rosto dos alpinistas com força violentíssima, machucando-lhes os olhos e tornando impossível enxergar por onde estavam indo. "Estava tão difícil e penoso", explica Schoening, "que houve uma tendência natural de fugir do vento, de continuar desviando dele para a esquerda, e foi aí que erramos."

"Às vezes não dava nem para ver os próprios pés, ventava tão forte", continua Schoening. "Eu estava preocupado que alguém resol­vesse sentar e se separasse do grupo. Nunca mais veríamos essa pessoa. Mas, assim que chegamos à parte plana do colo, começamos a seguir os sherpas e imaginamos que eles soubessem onde estava o acampamen­to. Então, de repente eles pararam e

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