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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 94 / 128

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deram meia-volta; logo percebe­mos que eles não tinham a menor idéia de onde estávamos. Naquele momento tive uma sensação de vazio na boca do estômago. Foi aí que percebi, pela primeira vez, que estávamos em apuros."

Durante as duas horas seguintes, Beidleman, Groom, os dois sher­pas e os sete clientes giraram às cegas pela tempestade, cada vez mais exaustos, a hipotermia crescendo, na esperança de logo toparem com o acampamento. Uma vez passaram perto de algumas garrafas vazias de oxigênio, indicando que as barracas estavam próximas, mas não foram capazes de achá-las. "Foi um caos total", diz Beidleman. "As pessoas vagavam por tudo quanto é lugar; e eu gritando com todo mundo, tentando fazê-los seguir um único líder. Enfim, talvez lá pelas dez da noite, ultrapassei uma pequena elevação e senti como se estivesse de pé na beirada do mundo. Podia sentir um imenso vazio logo além."

O grupo caminhara de maneira inadvertida até a ponta oriental do colo sul, na borda de um precipício de 2133 metros, no flanco do Kang­shung. Eles estavam na mesma altitude do acampamento 4, a apenas trezentos metros horizontais da segurança, (35) mas, diz Beidleman: "Eu sabia que se continuássemos vagando em meio à tempestade, logo mais acabaríamos perdendo alguém. Eu estava exausto de arrastar Yasuko. Charlotte e Sandy mal conseguiam parar em pé. De modo que gritei para que todos se amontoassem bem ali e esperassem a tempestade amainar".

Beidleman e Schoening procuraram um lugar protegido para escapar do vento, mas não havia onde se esconder. O oxigênio de todos acabara há muito tempo, tornando o grupo mais vulnerável ainda ao fator vento, que excedia —73 "C. Ao abrigo de uma rocha não muito maior que uma máquina de lavar pratos, num trecho de gelo estriado de ventos, os alpinistas agacharam-se numa fileira patética. "A essa altu­ra, o frio praticamente já acabara comigo", diz Charlotte Fox. "Meus olhos estavam congelados. Eu não via como iríamos sair dali vivos. O frio era tão doloroso, não achava que fosse agüentar nem mais um minuto. Eu me enrolei como uma bola e torci para que a morte chegas­se depressa."

"Tentamos nos manter aquecidos esmurrando-nos", Weathers relembra. "Alguém gritou para nós que devíamos manter os braços e as pernas em movimento. Sandy estava histérica; não parava de berrar: 'Eu não quero morrer! eu não quero morrer!'. Mas fora ela, ninguém disse quase nada."

Trezentos metros a oeste dali, eu tremia sem parar dentro da bar­raca — ainda que estivesse dentro do saco de dormir, usando meu traje de penugem de ganso e todas as outras peças de roupa que levara. O vendaval ameaçava rasgar a barraca. Cada vez que a porta se abria, a neve entrava, carregada pelo vento, de modo que tudo ali dentro estava coberto com 2,5 centímetros de neve. Sem saber da tragédia que se desenrolava lá fora, em meio à tempestade, eu perdia e recobrava a consciência, delirante de exaustão, desidratação e com os efeitos acu­mulados da falta de oxigênio.

Em algum momento, no começo da noite, Stuart Hutchison, meu companheiro de barraca, entrou, me sacudiu forte e perguntou se eu não queria ir lá fora com ele para bater umas panelas e piscar lanternas na esperança de guiar os alpinistas perdidos, mas eu estava muito fraco e incoerente para reagir. Hutchison — que voltara ao acampamento às 14h00 e que, portanto, estava muito menos debilitado que eu — tentou então acordar clientes e sherpas nas outras barracas. Todos estavam sentindo muito frio ou exaustos demais. De modo que Hutchison saiu

sozinho na tempestade.

Ele saiu de nossa barraca seis vezes aquela noite para procurar os alpinistas que não haviam voltado, no entanto a nevasca era tão forte que em nenhum momento se aventurou mais que alguns metros além da margem do acampamento. "O vento estava tremendo, com força balís­tica", ele conta. "A neve levantada pelo vento parecia um jato de areia ou algo assim. Eu só conseguia ficar do lado de fora uns quinze minutos por vez, depois ficava frio demais e tinha que voltar para a barraca."

Lá, entre os alpinistas agachados na extremidade oriental do colo sul, Beidleman prometeu a si mesmo permanecer alerta, em busca do menor sinal de que a tempestade estaria amainando. Pouco antes da meia-noite sua vigilância foi recompensada quando, de repente, notou umas poucas estrelas acima e gritou para que os outros olhassem. O vento continuava soprando uma furiosa nevasca na superfície, mas lá em cima o céu começava a clarear, revelando as silhuetas maciças do Everest e do Lhotse. Com esses pontos de referência em mente, Klev Schoening acreditava saber onde o grupo estava em relação ao acam­pamento 4. Depois de uma conversa aos berros com Beidleman, ele convenceu o guia

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