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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 95 / 128

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de que sabia onde estavam as barracas.

Beidleman tentou convencer todo mundo a se levantar e começar a andar na direção indicada por Schoening, mas Sandy Pittman, Char­lotte Fox, Beck Weathers e Yasuko Namba estavam fracos demais. Àquela altura, já estava óbvio para o guia que, se alguém do grupo não conseguisse chegar às barracas para reunir uma equipe de resgate, todos ali morreriam. De modo que Beidleman reuniu todos os que tinham condições de andar e ele, Schoening, Gammelgaard, Groom e os dois sherpas saíram tempestade afora para pedir ajuda, deixando para trás quatro clientes incapacitados, com Tim Madsen. Relutante em abandonar sua namorada, Charlotte Fox, Madsen se oferecera, altruis­ticamente, para ficar e cuidar de todos até que chegasse ajuda.

Vinte minutos mais tarde, o contingente de Beidleman entrou trô­pego no acampamento, onde tiveram uma reunião emocionada com Anatoli Boukreev, preocupadíssimo. Schoening e Beidleman, mal capazes de falar, disseram ao russo onde encontrar os cinco clientes que haviam ficado para trás, à mercê dos elementos, em seguida desmaia­ram nas respectivas barracas, totalmente esgotados.

Boukreev descera para o colo sul horas antes de qualquer outra pessoa da equipe de Fischer. Na verdade, às 17h00, quando seus com­panheiros de equipe ainda estavam se debatendo entre as nuvens, a 8530 metros de altitude, Boukreev já se encontrava na barraca, descan­sando e tomando chá. Guias experientes mais tarde questionaram sua decisão de descer tão na frente de seus clientes — um comportamento muito pouco ortodoxo da parte de um guia. Um dos clientes daquele grupo diz não sentir nada além de desprezo por Boukreev, insistindo que, quando era mais necessário, o guia "deu no pé".

Anatoli deixara o cume por volta das 14h00 e logo depois se viu preso no congestionamento formado no escalão Hillary. Assim que a multidão se dispersou, ele desceu depressa pela crista sudeste, sem esperar por nenhum dos clientes — apesar de ter dito a Fischer, no topo do escalão, que estaria descendo com Martin Adams. Boukreev, por­tanto, chegou ao acampamento 4 bem antes do pior da tempestade.

Depois da expedição, quando perguntei a Anatoli por que se apressara em descer adiante de seu grupo, ele me entregou a transcri­ção de uma entrevista que havia dado dias antes ao Men 's Journal, atra­vés de um intérprete russo. Boukreev me disse que havia lido a transcrição e confirmava sua veracidade. Lendo ali mesmo, rapidamente cheguei a uma série de perguntas sobre a descida, às quais ele respon­dera o seguinte:

Eu fiquei [no cume] cerca de uma hora. [...] Fazia muito frio, claro; tira­va as forças. [...] Minha posição era a de que eu não serviria para nada se ficasse por ali congelando, esperando. Eu seria mais útil se voltasse ao acampamento 4 para poder levar oxigênio até os alpinistas que regressa­vam ou subir para ajudar alguém que ficasse fraco durante a descida. [...] Se você fica imóvel naquela altitude, perde a força no frio e então não é mais capaz de fazer nada.

A suscetibilidade de Boukreev ao frio fora, sem dúvida, muito exacerbada pelo fato de não estar usando oxigênio suplementar; na ausência dele, simplesmente não podia parar e esperar pelos clientes mais lentos na crista do cume sem se expor a queimaduras, necroses e hipotermia. Sejam quais forem os motivos, ele saiu bem à frente do grupo - o que, aliás, fora seu comportamento durante a expedição toda, como deixaram bem claros os últimos telefonemas de Fischer do acampamento-base para Seattle.

Quando insisti com ele sobre o perigo de deixar os clientes na cris­ta do cume, Anatoli manteve sua posição de que era para o bem da equi­pe toda: "É muito melhor eu me aquecer no colo sul e estar pronto para levar oxigênio, se o do cliente acabar". De fato, pouco depois do anoi­tecer, depois que o grupo de Beidleman não voltou e a tempestade adquiriu força de furacão, Boukreev percebeu que deviam estar com problemas e fez uma corajosa tentativa de levar oxigênio até eles. Mas esse estratagema tinha uma falha séria: como nem ele nem Beidleman tivessem um rádio, Anatoli não tinha como saber a verdadeira situação dos alpinistas perdidos, ou em que trecho da imensa porção superior da montanha poderiam estar.

Por volta das 19h30, Boukreev saiu do acampamento 4 para pro­curar o grupo, assim mesmo. À essa altura, disse ele:

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