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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 96 / 128

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A visibilidade era de talvez um metro, até que sumiu por completo. Eu tinha uma lanterna e comecei a usar oxigênio para acelerar minha subi­da. Estava carregando três garrafas. Tentei ir mais rápido, mas a visibilidade era nula. [,..] É como estar sem olhos, sem poder ver, era impossível enxergar. Isso é muito perigoso, porque se pode cair numa greta, pode-se cair pelo lado sul do Lhotse, 3 mil metros abaixo. Tentei subir, estava escuro, mas não consegui encontrar a corda fixa.

Uns 180 metros acima do colo sul, Boukreev reconheceu a futili­dade de seu esforço e regressou ao acampamento, mas, ele admite, quase se perdeu também. De todo modo, foi até melhor abandonar sua tentativa de resgate porque, nessa altura, seus companheiros não esta­vam mais no pico acima, para onde Boukreev se dirigia - na altura em que ele desistiu da busca, o grupo de Beidleman estava, na verdade, vagando em torno do colo sul, 180 metros abaixo do russo.

Quando chegou de volta ao acampamento 4, por volta das 21h00, Boukreev estava preocupado com os dezenove alpinistas que faltavam, mas como não tivesse idéia de onde se achavam, não havia nada a fa­zer exceto esperar. Aí, às 00h45, Beidleman, Groom, Schoening e Gammelgaard entraram se arrastando no acampamento. "Klev e Neal tinham perdido completamente a força e mal podiam falar", lembra-se Boukreev. "Eles me disseram que Charlotte, Sandy e Tim precisavam de ajuda, que Sandy estava perto de morrer. Aí me deram uma indica­ção geral de onde encontrá-los."

Ao saber da chegada dos alpinistas, Stuart Hutchison saiu para ajudar Groom. "Levei Mike até a barraca dele", Hutchison lembra, "e vi que ele estava muito, muito exausto. Era capaz de se comunicar com clareza, mas exigia um tremendo esforço, como se fossem as últimas palavras de um moribundo. 'Você tem que arrumar alguns sherpas', ele me disse. 'Mande buscarem Beck e Yasuko.' Depois apontou para o lado do Kangshung."

Os esforços de Hutchison para organizar uma equipe de resgate foram infrutíferos, no entanto. Chuldum e Arita — sherpas da equipe de Hall que não tinham acompanhado o grupo até o cume e que ficaram de reserva no acampamento 4, justamente para uma emergência como essa - estavam incapacitados, com envenenamento por monóxido de carbono, por terem cozinhado numa barraca pouco ventilada; Chul­dum, na verdade, estava vomitando sangue. E os outros quatro sherpas de nossa equipe estavam gelados e debilitados demais por terem ido até o topo.

Depois da expedição, perguntei a Hutchison por que, assim que soube do paradeiro dos alpinistas perdidos, não tentou acordar Frank Fischbeck, Lou Kasischke ou John Taske - ou não fez uma segunda tentativa de me acordar - para pedir nossa ajuda na operação de res­gate. "Era tão óbvio que todos vocês estavam tão exauridos que nem pensei em perguntar. Você estava tão além do ponto normal de fadiga que imaginei que, se tentasse ajudar no resgate, só pioraria a situação - você acabaria precisando ser resgatado também." O resultado foi que Stuart saiu sozinho, na tempestade, mas uma vez mais retomou da beirada do acampamento, quando começou a pensar que não saberia

voltar se fosse mais adiante.

Ao mesmo tempo, Boukreev também estava tentando organizar uma equipe de resgate, mas não entrou em contacto com Hutchison nem foi até nossa barraca, de modo que os esforços de Hutchison e Boukreev continuaram descoordenados e eu nunca soube nem de um nem de outro plano. No fim Boukreev descobriu, como acontecera com Hutchison, que todo mundo que ele conseguia acordar estava ou doen­te, ou exausto ou com medo de ajudar. Assim, o russo resolveu trazer de volta sozinho o grupo todo. Mergulhando bravamente nas garras da tempestade, deu busca pelo colo sul durante quase uma hora, mas não conseguiu encontrar ninguém.

Boukreev não desistiu. Voltou ao acampamento, obteve uma indi­cação mais detalhada de Beidleman e Schoening, depois saiu de novo debaixo da tormenta. Dessa vez viu a luzinha fraca da lanterna frontal de Madsen, já com a pilha no fim, e pôde localizar os alpinistas perdi­dos. "Estavam deitados no gelo, sem movimento", diz Boukreev. "Não conseguiam falar." Madsen continuava consciente e ainda capaz de cui­dar de si próprio, porém Pittman, Fox e Weathers estavam totalmente incapazes, e Namba parecia estar morta.

Depois que Beidleman e os outros deixaram o amontoado para buscar ajuda, Madsen reuniu os que sobraram e insistiu para que conti­nuassem se mexendo para não congelarem. "Pus Yasuko no colo de Beck", Madsen contou depois, "mas ele já mal reagia, àquela altura, e Yasuko não se movia. Um pouco

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