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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 98 / 128

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Percebi, no entanto, que se ele não tivesse virado à esquerda e tivesse ido em frente pelo sulco — o que seria muito fácil de fazer naquela brancura total, mesmo sem estar exausto e estupidificado com o mal da montanha —, teria rapidamente desembocado na extremida­de ocidental do colo sul. Abaixo, o íngreme gelo cinzento do flanco do Lhotse despencava uns 1200 metros verticais, até o chão do Circo Oeste. Parado ali, com medo de chegar mais perto da beirada, reparei numa única trilha meio apagada, deixada por grampões, que levavam rumo ao abismo. Aquelas pegadas, eu temia, eram de Andy Harris.

Após chegar ao acampamento, na noite anterior, eu dissera a Hutchison que tinha visto Harris chegar são e salvo até as barracas. Hutchison mandara a notícia por rádio para o acampamento-base e de lá a mensagem fora passada, pelo telefone via satélite, para a mulher com quem Harris vivia na Nova Zelândia, Fiona McPherson. Ela fica­ra emocionada e muito aliviada de saber que Harris estava seguro no acampamento 4. Agora, contudo, lá em Christchurch, Jan Arnold, a mulher de Hall, teria que fazer o impensável: ligar para Fiona McPher­son e informá-la de que tinha havido um horrível engano - que Andy na verdade estava desaparecido, provavelmente morto. Imaginando essa conversa telefônica e meu papel nos acontecimentos que levaram até ela, caí de joelhos, com ataques de ânsia seca, ameaçando vomitar várias e várias vezes, enquanto o vento gelado me castigava as costas.

Após passar sessenta minutos procurando em vão por Andy, regressei à minha barraca bem a tempo de escutar uma conversa por rádio entre o acampamento-base e Rob Hall; ele estava lá em cima, na crista do cume, pedindo ajuda. Hutchison contou-me então que Beck e Yasuko estavam mortos e que Scott Fischer estava desaparecido em algum lugar no pico. Logo em seguida, as baterias do nosso rádio acabaram, isolando-nos do resto da montanha. Alarmados por terem per­dido contacto conosco, integrantes da equipe imax, no acampamento 2, chamaram a equipe sul-africana, cujas barracas no colo sul estavam a poucos metros das nossas. David Breashears - líder da imax e alpinis­ta que eu conhecia fazia vinte anos - relata: "Nós sabíamos que os sul-africanos tinham um rádio potente e que estava funcionando, de modo que pedimos a um dos integrantes da equipe deles, no acampamento 2, para chamar Woodall no colo sul e dizer: 'Escute, isto é uma emergên­cia. Tem gente morrendo lá em cima. Precisamos nos comunicar com os sobreviventes da equipe de Hall para coordenar um resgate. Por favor empreste o rádio a Jon Krakauer'. E Woodall disse não. Era muito claro o que estava em jogo naquele momento, mas eles não cederam o rádio deles".

Logo depois da expedição, quando eu estava pesquisando para escrever meu artigo para a revista Outside, entrevistei tantas pessoas das equipes de Hall e Fischer que foram até o cume quantas me foi pos­sível - falei com a maioria delas várias vezes. Martin Adams, descon­fiado de repórteres, foi contudo esquivo na esteira da tragédia; escapou a várias tentativas minhas de entrevistá-lo até a publicação do artigo na revista.

Quando consegui por fim entrar em contacto com Adams por tele­fone, em meados de julho, e ele consentiu em falar, comecei pedindo-lhe que me contasse tudo o que lembrava sobre o ataque ao cume. Um dos melhores clientes aquele dia, ele permaneceu próximo à dianteira do grupo e, durante boa parte da escalada, manteve-se ou à minha fren­te ou pouco atrás. Como possuísse o que me parecia uma memória fora do comum, estava especialmente interessado em ouvir sua própria ver­são dos eventos e compará-la com a minha.

Já era tarde avançada, quando Adams começou a descida da Bal­cony, a 8412 metros. Disse-me que eu ainda estava visível, talvez uns quinze minutos à sua frente, mas que descia mais rápido que ele e logo desapareci de vista. "E quando eu o vi de novo", disse, "já estava quase escuro e você estava atravessando a região plana do colo sul, a cerca de trinta metros das barracas. Reconheci que era você por causa do seu tra­je vermelho."

Pouco depois, Adams desceu até uma plataforma plana, bem aci­ma da íngreme rampa de gelo que me dera tanto trabalho e caiu numa pequena greta. Conseguiu sair e, em seguida, caiu numa outra greta, mais funda. "Deitado ali naquela greta, eu pensava: 'Acho que agora é o fim'. Levou um certo tempo, mas no fim consegui escalar aquela tam­bém. Quando saí, meu rosto estava coberto de neve, que logo se trans­formou em gelo. Então vi alguém sentado no gelo, um pouco mais à esquerda, usando uma lanterna frontal, de modo que andei naquela direção. Ainda não estava totalmente escuro, mas já não dava mais para eu ver as barracas."

"Aí cheguei no tal sujeito e perguntei: 'Ei, onde estão as barra­cas?', e o cara, sei lá quem era, apontou a direção delas. Daí eu disse: 'É, é o que eu imaginava'. Em seguida o cara me disse alguma coisa do

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