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o começo da tarde do dia 10 de maio de 1996, Jon Krakauer alcançou o cume do Everest, ... - page 99 / 128

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tipo: 'Tome cuidado. O gelo aqui é mais íngreme do que parece. Talvez a gente devesse descer e pegar uma corda e alguns parafusos de gelo'. Eu pensei: 'Foda-se a corda. Eu vou dar o fora daqui'. Dei dois ou três passos, tropecei, escorreguei no gelo, de cabeça e de peito. Enquanto estava escorregando, sei lá como a ponta do piolet agarrou-se em algu­ma coisa, eu virei de cabeça para cima e parei no fim da rampa. Foi mais ou menos isso."

Enquanto Adams descrevia seu encontro com o alpinista anônimo e o escorregão pelo gelo, minha boca foi ficando seca e os pêlos no dor­so da nuca de repente se eriçaram. "Martin", perguntei, quando ele ter­minou de falar, "você acha que pode ter sido eu que você encontrou naquele lugar?"

"Não, claro que não!", ele riu. "Não sei quem era, mas definitiva­mente não era você." Então lhe contei sobre meu encontro com Andy Harris e sobre a arrepiante série de coincidências: eu tinha visto Harris mais ou menos na mesma hora em que Adams encontrara o tal sujeito, e mais ou menos no mesmo lugar. Boa parte do diálogo trocado entre Harris e eu foi misteriosamente semelhante ao diálogo entre Adams e o tal homem. E, pelo que me lembrava, Adams escorregara de cabeça no gelo quase da mesma maneira que Harris.

Depois de conversarmos alguns minutos mais, Adams se conven­ceu: "Quer dizer que foi com você que eu falei aquela hora", ele afir­mou, espantado, admitindo que talvez tivesse se enganado quando pen­sou ter me visto cruzando o colo sul, pouco antes de escurecer. "E foi comigo que você falou. E não com Andy Harris. Uau! Cara, você vai ter um bocado que explicar."

Eu estava atônito. Há dois meses eu vinha dizendo que Harris caíra do colo sul num precipício e não era nada disso. Meu erro aumen­tara ainda mais, e sem necessidade, a dor de Fiona McPherson, dos pais de Andy, Ron e Mary Harris, de seu irmão, David Harris, e de seus mui­tos amigos.

Andy era um homem grande, de mais de 1,80 metro de altura e quase cem quilos, que falava com um forte sotaque neozelandês; Mar­tin era pelo menos quinze centímetros mais baixo, pesava talvez uns 65 quilos e falava com um pronunciado sotaque texano. Como pude come­ter um erro assim tão grosseiro? Será que estava de fato tão debilitado que olhei na cara de um quase estranho e o confundi com um amigo com quem eu passara as seis semanas anteriores? E se Andy nunca chegou ao acampamento 4, depois de atingir o cume, o que teria acontecido com ele?

17

Cume 15h40

10 de maio de 1996 8848 m

Nossa ruína deve-se, sem dúvida, ao tempo inclemente para o qual não parece haver nenhuma explicação satisfatória. Não creio que os seres humanos tenham atravessado, jamais, um mês como este que atravessamos, que deveríamos ter atravessado, não fosse o adoecimento de um segundo companheiro, o capitão Oates, e a falta de combustíveis em nosso depósito, pela qual não saberia responder e, por fim, não fosse a tempestade que caiu sobre nós a dezessete quilômetros do depósito de onde esperáva­mos resgatar nossos suprimentos finais. Com certeza a desdita não poderia ter sido maior depois deste último golpe. [...] Expusemo-nos a riscos, sabíamos que estávamos nos expondo; os eventos foram contra nós e, portanto, não temos motivo de queixa e nos curvamos à Providência, decididos afazer o melhor que pudermos, até o fim. [...]

Se porventura tivéssemos vivido, eu seria obrigado a relatar a intrepidez, a resistência e a coragem de meus companheiros, coi­sas que teriam comovido o coração de todos os ingleses. Essas notas toscas e nossos corpos mortos terão que contar a história.

Robert Falcon Scott,

em "Mensagem ao Público",

escrita logo antes de sua morte na

Antártida, a 29 de março de 1912,

de Scott 's last expedition

Scott Fischer chegou ao cume por volta das 15h40, no dia 10 de maio, e lá estava seu fiel amigo e sirdar, Lopsang Jangbu, esperando por ele. O sherpa tirou o rádio de dentro da jaqueta e fez contato com Ingrid Hunt, no acampamento-base, depois entregou o walkie-talkie a Fischer. "Todos nós conseguimos", Fischer disse a Ingrid Hunt, 3475 metros abaixo. "Nossa, estou cansado." Alguns minutos depois, Makalu Gau chegou com dois sherpas. Rob Hall também estava lá, esperando impacientemente que Doug Hansen aparecesse, quando uma maré crescente de nuvens lambeu sinistramente a crista do cume.

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