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A IDENTIDADE CULTURAL NA PÓS-MODERNIDADE - page 7 / 28

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torná-lo o Primeiro Movimentador de toda criação; daí em diante, ele explicou o resto do mundo material inteiramente em termos mecânicos e matemáticos.

Descartes postulou duas substâncias distintas — a substância espacial (matéria) e a substância pensante (mente). Ele refocalizou, assim, aquele grande dualismo entre a "mente" e a "matéria" que tem afligido a Filosofa desde então. As coisas devem ser explicadas, ele acreditava, por uma redução aos seus elementos essenciais à quantidade mínima de elementos e, em última análise, aos seus elementos irredutíveis. No centro da "mente" ele colocou o sujeito individual, constituído por sua capacidade para raciocinar e pensar. "Cogito, ergo sum" era a palavra de ordem de Descartes: "Penso, logo existo" (ênfase minha). Desde então, esta concepção cio sujeito racional, pensante e consciente, situado no centro do conhecimento, tem sido conhecida como o "sujeito cartesiano".

Outra contribuição crítica foi feita por John Locke, o qual, em seu Ensaio sobre a compreensão humana, definia o indivíduo em termos da "mesmidade (sameness) de um ser racional" — isto é, uma identidade que permanecia a mesma e que era contínua com seu sujeito: "a identidade da pessoa alcança a exata extensão em que sua consciência pode ir para trás, para qualquer ação ou pensamento passado" (Locke, 1967, pp. 212­213). Esta figura (ou dispositivo conceitual) — o "indivíduo soberano" — está inscrita em cada um dos processos e práticas centrais que fizeram o mundo moderno. Ele (sic) era o "sujeito" da modernidade em dois sentidos: a origem ou "sujeito" da razão, do conhecimento e da prática; e aquele que sofria as conseqüências dessas práticas — aquele que estava "sujeitado" a elas (veja Foucault, 1986 e também Penguin Dictionary of Sociology: verbete "subject").

Algumas pessoas têm questionado se o capitalismo realmente exigiu uma concepção de indivíduo soberano desse tipo (Abercrombie et alli, 1986). Entretanto, a emergência de urna concepção mais individualista do sujeito é amplamente aceita. Raymond Williams sintetizou essa imersão do sujeito moderno nas práticas e discursos da modernidade na seguinte passagem:

A emergência de noções de individualidade, no sentido moderno, pode ser relacionada ao colapso da ordem social, econômica e religiosa medieval. No movimento geral contra o feudalismo houve uma nova ênfase na existência pessoal do homens, acima e além de seu lugar e sua função numa rígida sociedade hierárquica. Houve uma ênfase similar, no Protestantismo, na relação direta e individual do homem com Deus, em oposição a esta relação mediada pela Igreja. Mas foi só ao final do século XVII e no século XVIII que um novo modo de análise, na Lógica e na Matemática, postulou o indivíduo como a entidade maior (cf. as "mônadas" de Leibniz), a partir da qual outras categorias (especialmente categorias coletivas) eram derivadas. O pensamento político do Iluminismo seguiu principalmente este modelo. O argumento começava com os indivíduos, que tinham uma existência primária e inicial. As leis e as formas de sociedade eram deles derivadas: por submissão, como em Hobbes; por contrato ou consentimento, ou pela nova versão da lei natural, no pensamento liberal. Na economia clássica, o comércio era descrito através de um modelo que supunha indivíduos separados que [possuíam propriedade e] decidiam, em alguns ponto de partida, entrar em relações econômicas ou comerciais. Na ética utilitária, indivíduos separados calculavam as conseqüências desta ou daquela ação que eles poderiam empreender (Williams, 1976, pp.135-6).

Ainda era possível, no século XVIII, imaginar os grandes processos da vida moderna como estando centrados no indivíduo "sujeito-da­-razão". Mas à medida em que as sociedades modernas se tornavam mais complexas, elas adquiriam uma forma mais coletiva e social. As teorias clássicas liberais de governo, baseadas nos direitos e consentimento individuais, foram obrigadas a dar conta das estruturas do estado- nação e das grandes massas que fazem uma democracia moderna. As leis clássicas da economia política, da propriedade, do contrato e da troca tinham de atuar, depois da industrialização, entre as grandes formações de classe do capitalismo moderno. O empreendedor individual da Riqueza das "ações de Adam Smith ou mesmo d'O capital de Marx foi transformado nos conglomerados empresariais da economia moderna. O cidadão individual tornou- se enredado nas maquinarias burocráticas e administrativas do estado moderno.

Emergiu, então, unia concepção mais social do sujeito. O indivíduo passou a ser visto como mais localizado e "definido" no interior dessas grandes estruturas e formações sustentadoras da sociedade moderna. Dois importantes eventos contribuíram para articular um conjunto mais amplo de fundamentos conceptuais para o sujeito moderno. O primeiro foi a biolo0a d arwiniana. O sujeito humano

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