X hits on this document

Word document

Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas ... - page 116 / 160

419 views

0 shares

0 downloads

0 comments

116 / 160

Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 03 Nº 05 – 2007

ISSN 1809-3264

verbais. Logo, conclui-se que essa oposição entre formas ativa e passiva de vivenciar a experiência amorosa não é tão nova assim.

Erich Fromm confronta duas concepções de amor: o amor amadurecido (Racionalismo), ilustrado pela frase: “necessito de ti porque te amo”; e o amor imaturo, exemplificado pela seguinte sentença: “ amo-te porque necessito de ti”. Enquanto na primeira, o amor é o fundamento da experiência (o porquê); na segunda, a necessidade assume a condição de destaque.

II – O racionalismo na literatura

Em Amar – Verbo Intransitivo, o amor é tratado como tema racional ao se discutir se ele pode ou não ser aprendido; não obstante a falta de convicção do narrador ante sua aquisição mediante aprendizagem (“É coisa que se ensine o amor? Creio que não. Pode ser que sim”. Pág. 63), tal concepção prevalece; pois, a governanta está convicta e tal concepção perdurará até o desfecho.

Na cultura ocidental, a discussão sobre a plausibilidade acerca da virtude ser objeto de aprendizagem remonta à época de Platão, que apresenta Sócrates discutindo essa idéia no diálogo filosófico Mênon. Após constatar a natureza pedagógica do amor, competia determinar o professor. A constatação era óbvia, quem a ensinasse seria aquele que a dominasse com maestria, e fosse capaz de transmiti-la aos possíveis discípulos; pois, ninguém ensina o que não sabe e, quem sabe de virtude o suficiente para ensiná-la, é o filósofo, por ser o único que ama a sabedoria e, por conseguinte, ser capaz de transmitir aos educandos a mesma paixão pela virtude do saber. Imbuído dessa convicção, Ovídio também dá sua contribuição ao estudo e ao aprendizado da arte de amar em seu poema A Arte de Amar,  verdadeiro compêndio de estratégia amorosa. Leo Buscaglia, autor contemporâneo, em Amor, discute a pertinência da idéia de ser o amor um conteúdo aprendido; e, como outras virtudes humanas, conclui-se pela sua condição de ser aprendido.

Assim como o filósofo seria o mais recomendado para ensinar a virtude, por dominá-la o suficiente; assim também, a governanta teria autoridade racional para ensinar o amor. De onde viria essa autoridade? Lê-se no próprio livro que … “Fräulein tinha um método bem dela. O deus paciente o construíra, …” (Pág. 63); entendendo a palavra deus” como “gênio”, percebe-se aí um componente indispensável ao exercício de qualquer manifestação artística: a criatividade; como adjunto adnominal da palavra “deus”, identificamos outro ingrediente imprescindível ao exercício de qualquer arte: a paciência (“deus paciente”). Ao discutir as qualidades importantes para a prática da arte de amar, Erich Fromm estabelece a preocupação suprema com seu domínio, a disciplina, a concentração e a paciência como vitais para o domínio artístico, inclusive da arte de amar. Portanto, essa é a credencial da Fräulein Elza para ensinar a arte de amar ao personagem Carlos: apresentar uma alma artística.

Sem recorrer a substantivos, Mário não intitula seu romance como “Amor – Fonte de Sofrimento e Solidão”. Optando pelo verbo, resgata ao amor sua dimensão dinâmica de processo; substantivos cristalizam, congelam,  a natureza  ativa inerente à vida; vida é movimento, dinamismo, ação; amor é, como substantivo, objeto de troca.

Por que o verbo “amar” é considerado “intransitivo” neste romance? Segundo a gramática, esse verbo é “transitivo direto”; pois, quem ama, ama alguém. O evangelho adota o verbo “amar” regido por preposição, sendo o seu complemento um “objeto direto preposicionado”. No livro Ich und Du  (Eu e Tu), de Martin Buber, entendi a razão pela qual Mário de Andrade o considera um verbo “intransitivo”.  De acordo com esse filósofo, os verbos transitivos estão ligados ao mundo coisificante do “isso”; todavia, os intransitivos servem melhor ao propósito de lidar com seres vivos. Infere-se isto da

Document info
Document views419
Page views423
Page last viewedSat Dec 10 15:41:07 UTC 2016
Pages160
Paragraphs2338
Words79461

Comments