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Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 03 Nº 05 – 2007

ISSN 1809-3264

RESENHA

BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Não verás país nenhum. 23a ed. revista e atualizada. São Paulo: Global, 2000. 379 páginas.

Daniel da Silva Moreira

O romance “Não verás país nenhum” foi publicado por Ignácio de Loyola Brandão no ano de 1981 e, desde então, tem sido umas das obras mais lidas e reeditadas da literatura brasileira. O título da obra dialoga com a tradição literária brasileira, fazendo referência a um verso do poeta parnasiano Olavo Bilac, “Criança, não verás país nenhum como este”, do poema “Pátria”. Brandão corta o fim do verso de Bilac no título de seu romance, mudando o sentido original, pois, ao invés da exaltação ao país do presente, o que se tem é uma advertência.

“Não verás país nenhum” se passa num futuro não muito distante, talvez no início do século XXI, numa São Paulo absolutamente caótica. As condições de vida na cidade são as mais absurdas possíveis, o calor é insuportável, as ruas estão cheias de lixo, insetos, cadáveres, há falta de água e comida, a cidade é superpovoada e dividida em castas. A vida de todos é controlada pelo Esquema, que raciona os recursos, como água, comida e bens de consumo, e determina até mesmo os locais de circulação das pessoas, controladas pelo uso dos cartões de circulação.

O Estado é o maior empregador e cria cargos totalmente desnecessários, apenas para diminuir o desemprego. O Esquema mantém a ordem social através de uma propaganda ostensiva, capaz de transformar a destruição da Amazônia, agora um gigantesco deserto, na 9ª maravilha do mundo; através da eliminação da memória coletiva e da proibição de livros e jornais, da perseguição aos professores e do fechamento das universidades; de uma divisão extrema da sociedade, com áreas delimitadas para cada classe social; da centralização total do poder em uma elite que tem liberdade irrestrita de comando, acesso à informação e se mantém protegida das pestes e da temperatura escaldante.

O personagem principal da obra – e também narrador – é Souza, um ex-professor universitário de história, que foi afastado de suas atividades e destinado a um emprego burocrático sem qualquer utilidade aparente. Souza é casado com Adelaide, uma mulher que o ignora e que é fortemente influenciada pela religião. O sobrinho do casal, um capitão Militecno (um dos neologismos criados por Brandão para descrever as funções do novo regime), representa as gerações nascidas depois da instauração do Esquema, que não só não possuem consciência sobre as hipocrisias do governo, como também está totalmente agregado às suas ideologias. Souza é um elo de ligação entre um passado que não existe mais – nem em lembranças, já que a memória foi extinta – e a realidade de seu tempo, que ele nem ao menos compreende. O personagem tem a consciência de ser uma exceção e de não se enquadrar nos moldes da sociedade em que vive.

É a partir do dia em que surge um furo em sua mão que sua vida começa a mudar: Souza começa a se questionar, a se atrasar para o trabalho e a vagar sem rumo; a situação acaba por levá-lo a ser demitido, abandonado pela mulher e a viver como um indigente; ele passa de sua confortável condição burguesa à total exclusão, primeiramente de sua casa, depois de sua cidade. O furo na mão é só a marca física do que Souza tem por dentro, mas é fundamental para que aqueles que o circundam comecem a estranhá-lo, a vê-lo como diferente. A busca empreendida por Souza vai levá-lo para fora de sua antiga classe social, com a qual não conseguia se comunicar, e colocá-lo em contato com os excluídos, em meio aos quais acaba permanecendo.

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