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Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 03 Nº 05 – 2007

ISSN 1809-3264

É interessante notar que o tempo em “Não verás país nenhum” parece não existir, ou, ao menos, não correr. Prova dessa atemporalidade é que a mulher de Souza mantinha, há 32 anos, os calendários no dia primeiro de janeiro de todos os anos. Além disso, sabemos que a narrativa se desenrola no futuro, mas não há precisão quanto a datas; a vida é uma mera sucessão de trabalhos sem sentido, uma rotina em que não há perspectivas de futuro, só o desejo de se conseguir sobreviver mais um dia. Os limites entre realidade e irrealidade também são colocados em questão no romance de Brandão: há momentos em que a mente de Souza não consegue distinguir entre o que é real e o que é criação de sua imaginação. Além dessa confusão pessoal de Souza, há ainda a inversão da realidade feita pela propaganda ostensiva do Esquema.

Um aspecto importante sob o qual se pode ler “Não verás país nenhum” é o que considera o que o romance representa para a época em que foi publicado, o ano de 1981, situado, portanto, dentro do período da “abertura” democrática. No romance fica bastante clara a crítica, ou melhor, a advertência ao que poderia vir depois do fim da ditadura, depois dos “Abertos Oitenta”. A identificação fica patente em trechos como “A era da Grande Locupletação veio logo depois dos Abertos Oitenta que tinham se sucedido a uma ditadura grotesca.” (p.61) e “PENSEM EM NOSSO SISTEMA DE REPRESAS, NAS HIDRELÉTRICAS, NA USINA NUCLEAR, NAS FERROVIAS DE MINÉRIOS, NA POLÍTICA ENERGÉTICA, NA DESCOBERTA DO ÁLCOOL COMBUSTÍVEL” (p.63), trecho em que se faz inúmeras referências às grandes obras e projetos do governo militar. O início dos anos oitenta, justamente pela abertura política, era uma época de muitas possibilidades à frente, o que iria realmente acontecer era incerto, poderia ser positivo ou negativo.

Com “Não verás país nenhum”, o autor tenta aproveitar o momento propício, o clima de mudanças, para aconselhar, abrir os olhos do “povo” – ou ao menos das classes que tivessem acesso ao livro – sobre os caminhos e descaminhos possíveis de serem tomados. Assim, o Brasil desenhado pelo autor em sua obra, nada mais seria do que resultado da imprudência no período que se seguiria à ditadura. O leitor que, no início dos anos oitenta, tomasse contato com o Brasil distópico pensado por Brandão, provavelmente o negaria, criando a partir daí sua própria utopia, seu país ideal que poderia ser construído a partir do Brasil da época.

Uma das grandes preocupações do romancista, expressas ao longo de toda a obra, é a ecológica. Desse modo, toda a narrativa chama a atenção para os possíveis resultados da utilização indiscriminada de recursos naturais. A falta de água, de comida, a destruição de florestas e da camada de ozônio, assuntos que hoje estão na ordem do dia, na época da escrita de “Não verás país nenhum” apenas começavam a ser discutidos e se faz bastante evidente o comprometimento do autor com a causa.

Infelizmente, a cada ano que passa, os romances distópicos deixam de ser apenas advertências de um futuro distante, quase irreal, para serem obras de cunho quase profético, cujas previsões vão sendo mais e mais cumpridas. Em 1981, quando Ignácio de Loyola Brandão escreveu “Não verás país nenhum”, a preocupação da sociedade com a ecologia, por exemplo, era algo que começava a se delinear. Hoje, entretanto, é um tema central no mundo inteiro, provando o quanto a antevisão do intelectual foi capaz de acertar. E, talvez, fosse o caso de pensarmos também outros aspectos sugeridos pela leitura do romance para tentarmos, como era a intenção de Brandão, ver ainda algum país no futuro.

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