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Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 03 Nº 05 – 2007

ISSN 1809-3264

MARQUEZ, Gabriel Garcia. Memória de minhas putas tristes. São Paulo: Editora Record, 2005. 132 p.

Autobiografia de ficção: o fundo opaco do viver

Maria Carlota de Alencar Pires

“Não preciso nem dizer, porque dá para reparar a léguas: sou feio, tímido e anacrónico. Mas à força de não querer ser assim consegui simular exatamente o contrário. Até o sol de hoje, em que resolvo contar como sou por minha livre e espontânea vontade, nem que seja só para alívio da minha consciência. Comecei com o telefonema insólito a Rosa Cabarcas, porque, visto de hoje, aquele foi o início de uma nova vida, e numa idade em que a maioria dos mortais está morta.

Vivo numa casa colonial na calçada de sol do parque de San Nicolás, onde passei todos os dias da minha vida sem mulher nem fortuna, onde viveram e morreram meus pais, e onde me propus morrer só, na mesma cama em que nasci e num dia que desejo longínquo e sem dor. Meu pai comprou a casa num leilão público no final do século XIX, alugou o andar de baixo para lojas de luxo de um consórcio de italianos e reservou-se este segundo andar para ser feliz com a filha de um deles, Florina de Dios Cargamantos, intérprete notável de Mozart, poliglota e garibaldina, e a mulher mais formosa e de melhor talento que jamais houve na cidade: minha mãe.”

O fragmento é de Memória de minhas putas tristes, publicado em 2005 no Brasil. O autor é o colombiano Gabriel Garcia Márquez, prêmio Nobel de Literatura em 1982.   Trata-se do relato  autobiográfico de um jornalista  ancião de noventa anos, que rejeitou a experiência do  amor ao longo da vida, e agora, diante da velhice, busca uma noite de prazer com uma ninfeta virgem, no dia de seu  aniversário.

O mote narrativo parece mesmo ser banal,  remontando a outras memórias proibidas, como aquelas de Vladimi Nabokov, que conta  em detalhes criminológicos o enleio amoroso da menina Lolita com o seu tutor.

Memória de minhas putas tristes  não é um relato memorial e  tocante sobre a velhice, ou mesmo uma reflexão nostálgica sobre a inexorabilidade da morte. O que nelas encontramos é uma  escrita singular, no foco de  uma  lucidez absurda sobre a possibilidade de realização amorosa, ainda que  numa idade avançada,  e  mesmo quando este Eu-autor encontra-se imerso em tantos destroços da mais tosca realidade latino-americana.

O autobiógrafo dessas memórias descarnadas, indicia, ao mesmo tempo que destitui do espaço narrativo,  as  cenas pornográficas de suas aventuras de lenocínio, porque elas revelam o lado mais feio, mais desumano da prostituição.  O jornalista busca preencher o vazio da sua  solidãonuma casa em ruínas, roída pelos cupins, roída pelos fantasmas da infância. Mesmo assim, o jornalista  ancião  experencia o sexo com centenas de  prostitutas, que o levam a realizar uma “contagem de corpos”:

“Lá pelos meus vinte anos comecei a fazer um registro com o nome, a idade, o lugar, e um breve recordatório das circunstâncias e do estilo. Até os cinquenta anos eram quinhentas e catorze mulheres com as quais eu havia estado pelo menos uma vez. Interrompi a lista quando o corpo

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