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Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 03 Nº 05 – 2007

ISSN 1809-3264

já não dava mais para tantas e podia continuar as contas sem precisar de papel. Tinha minha ética própria.

Sem perder a ética da profissão,  a caneta trêmula  esboçava no papel  os artigos já muito triviais daquele cotidiano pálido. O jornalista  tem nos seus próprios  conflitos existenciais o material líqüido  de que se utiliza para escrever as suas crônicas no jJornal da cidade, no qual se mantém arraigado, fundido às paredes desbotadas. Ele  parecia  já  ser parte integrante daquela edificação centenária, mal construída,  como ele, e que, justo no dia de suas bôdas, o edifício  passava finalmente por uma reforma.”  

Este eu-autor inominado, pseudo-intelectual numa cidade imaginada, em que vemos a mesma rota  na qual  Gabriel Garcia Márquez trilhou os caminhos de Macondo,  em  Cem anos de solidão, escreve as suas memórias para se deslocalizar de  um mundo cada vez mais refratário  à  dor da solidão, da angústia individual, do vazio existencial,  da busca pela afetividade, principalmente à  dor da  falta dela. Mesmo assim, esta cidade imaginada é feita de artérias, nervos, carne, sexo e sangue, em que a pobresa pulsa, porque real, em  todos os lados e sobre todos os corpos. São subjetividades deveras agônicas, que atravessam a narrativa de Márquez para nos dizer que  os séculos sucedem a mesma miséria humana, a mesma tragédia que  desajusta os corpos já  sem destino,  seja no mundo imaginário, seja no mundo da realidade, como em Macondo, como no subúrbio gaúcho de  viamão, como no rio de Janeiro sem bela época.

O jornalista ancião ao completar noventa anos deseja experenciar o inusitado da vida, algo que lhe preencha os tantos  significados vazios, com os quaispincelava as suas desbotadas crônicas dominicais, publicadas ritualisticamente há quase meio século no jornal local.  

O sexo descartável que praticara ao longo da vida, com tantos corpos igualmente esvaziados,  assim como a sua escrita de superfície, jamais lhes haviam sido caros ao menos na decepção amorosa, que nunca sofrera, como aquela que lhe trespassara o espírito ao se deparar com as pedras falsas das jóias de família, substituídas pela própria mãe, ao longo dos anos.

Mas, justamente na noite em que pensaria ser mais uma noite de sexo sem amor,  se vê envolvido amorosamente pela ninfeta de quatorze anos, que acabara de entrar na prostituição, menos por vontade que pela força da cobiça da cafetina rosa Cabarcas.  

O relato memorialístico pode parecer enfadonho, ou mesmo ridículo, quando o jornalista decadente se vê diante da falência de seu órgão genital: mais como  instrumento de descartáveis prazeres em tantos corpos ao longo da vida, do que como meio de alcançar o real sentido do amor, que encontrara, finalmente,  na menina prostituta. As crônicas agora ganhavam um novo signifcado, transformadas em cartas de amor, inspiradas pelo imaginário das suas “mil e uma noites” que ainda não vivera coma “menina”, preservada em sua virgindade  às custas de sedativos homeopáticos,  num ardil da cafetina rosa Cabarcas:

No lugar da fórmula de folhetim tradicional que as crónicas tiveram desde sempre, as escrevi como cartas de amor que cada um podia tornar suas. Propus no jornal que o texto não fosse levado às linotipos mas publicado com minha caligrafia florentina.

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