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Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 03 Nº 05 – 2007

ISSN 1809-3264

Memória de minhas putas tristes mostra uma  cidade náufraga na  prostituição, encurralada  pelos podres  poderes da política,  pelo poder do pouco dinheiro: como meio circulante da opressão e da divisão injusta de trabalho. Divisão  de trabalho que rompe em definitivo com o panfletarismo marxista de outros tempos em que líamos uma literatura de nome engajada,  e que nesse relato de um outro Márquez desencantado, o trabalho abre dois  planos  de exclusão. Um que se volta para  a fábrica de camisas, na qual a Sherhazade pobre pregava botões, batizada pelo jornalista ancião de  delgadina, de tão subnutrida. E outro que aponta  para o emprego de um turismo sexual, que já não figura como meio de ascensão econômica, ou mesmo social, como já mostrara Jorge amado em Tiêta do agreste,  da mesma forma que  ora assistimos na novela  da rede globo:  Paraíso tropical, uma cidade imaginada? .

Na cidade indígena de Garcia  Márquez  a prostituição instala-se à sombra do poder, numa versão anti-midiática, e muito  longe da espetacularização do lenocínio, como vimos acontecer recentemente na mídia televisiva, e que a indústria cultural confirmou como celebridade do momento, a  garota de programa Bruna surfistinha, com seu livro-diário de tantas revelaçõessobre um mundo cada vez mais visível, ou melhor, televisivo. O doce veneno do escorpião, diário de Bruna, foi  campeão de vendas em 2006, e anotado em todas as listas do espaço cult jornalístico brasileiro.

Contudo, nessa grotesca novela do genial inventor de memórias vivas, Gabriel Garcia Márques,  ouvimos o   marulhar do sangue do escritor a pulsar nas veias daautobiografia de ficção, em que visualizamos com nitidez o fundo opaco do viver, cada vez mais insólito no mundo do capitalismo tardio. , como vemos no diário de Bruna.

O  ser humano encontra na ficção os fios que o mantém ligado à realidade, que o mantém ligado à vida. É aqui que entra, pela fenda da mônada,  o gosth-writter autobiográfico, pois toda escrita de ficção  é, necessariamente, autobiográfica, fantasmagórica.  Necessariamente autobiográfica  porque ela parte exatamente de uma necessidade cotidiana de um Eu-autor, como respirar, comer, dormir, até amar. Na autobiografia de ficção, que está para além da simples  escrita de si mesmo,  o escritor revela os seus fantasmas assombrados do existir, assim como as  suas inquietudes mais profundas, e também mais indizíveis,  sobre a realidade em volta.

Memória de minhas putas tristes concretiza o fundo opaco de vidas desabridas, e também desvela  as mesmas  sombras de uma historicidade sem anais, como a de Bruna surfistinha. Na autobiografia de ficção de Márquez, ou autoficção, como também denominamos, estão envolvidas duas fronteiras muito diminutas: a da realidade do escritor e a da terra desencantada de seu imaginário criativo, que compreende a um só tempo o real e o simbólico, como canais estéticos da existência, para sempre inscrita na ficção.

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