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Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 03 Nº 05 – 2007

ISSN 1809-3264

Por isso, através da análise da campanha publicitária escolhida para compor o corpus deste artigo, demonstramos que, para a AD, não existe um sentido único. Os sentidos não são literais, mas construídos a partir da Formação Discursiva (FD)8 com a qual o sujeito se identifica. FD e sujeito, por sua vez, são determinados pelas condições de produção e o contexto histórico e social no qual o discurso é produzido. Através desses conceitos, buscamos, a partir da campanha publicitária da Tintas Coral, demonstrar que um objeto de análise não pode ser tomado como um objeto acabado e com um determinado sentido, visto que sua análise aponta para diferentes efeitos de sentido.

1 – A constituição ideológica do sujeito e do sentido

A questão do sujeito da linguagem recebeu, ao longo da história da Lingüística, tratamentos diversos. Apesar dos muitos escritos, parece-nos que muitas questões retornam e tantas outras se “abrirão” quando o assunto for o sujeito. Surge, então,  no século XX, um modelo que “reabre” essa discussão: trata-se da Análise do Discurso de linha francesa, inaugurada por Michel Pêcheux, em 1969, que objetivava estudar, como o próprio nome traz, o discurso, ultrapassando o limite da frase, do texto, bem como da enunciação. É nele, no discurso, que se concentram e se fundem como uma verdadeira rede de pesca, metáfora utilizada por Orlandi (2001), os fios, os nós e os furos, ou seja, as questões relativas à língua, à história e ao sujeito.

Contrariamente à concepção saussureana, a teoria do discurso concebe a língua sem os formalismos das descrições, sem excessivas análises de estrutura de conteúdo e considera a opacidade e incompletude da língua, já que está ligada à história e ao sujeito. A AD vai em busca do sujeito até então descartado em outros modelos lingüísticos, encontrando-o na psicanálise, com Lacan, e no materialismo histórico althusseriano.  

Esse sujeito da AD é social, articulado com a história e, por conseguinte, pelo ideológico (pelo viés do assujeitamento) e dotado de inconsciente (a relação com o dizer do outro). Dito de outro modo é duplamente afetado: em seu funcionamento individualizado, pelo inconsciente; e, em seu funcionamento social, pela ideologia. Os fundamentos que se encontram nesse sujeito são provenientes de Marx e Althusser e de Lacan e Freud. Convém lembrar, no entanto, que o sujeito não é uma parte das teorias de cada um desses autores, tampouco uma mera adição entre essas partes. A diferença do sujeito da AD reside no papel de intervenção da linguagem, rompendo com o papel formal e sistemático a ela atribuído pela visão estruturalista, estabelecido em sua origem, distinguindo-o também da condição que lhe confere a psicanálise.

Na instância do discurso, o sujeito não é um ser individualizado, pois não se trata da pessoa com suas plenas individualidades, como um ser empírico com existência particular, mas de um ser social. Na AD, a voz do sujeito vem de um escopo social e ideológico registrado em um dado momento da história. Dessa voz ecoa o lugar social de onde o sujeito fala. Não é mais aquele sujeito centrado, consciente e tomado como origem dos sentidos como preconizava a enunciação na teoria de Benveniste. Aqui, o sujeito é constituído pelo simbólico, logo “o indivíduo ao ser interpelado ideologicamente em sujeito identifica-se imaginariamente (grifo nosso) com a “forma-sujeito” de uma formação discursiva” (INDURSKY, 1998, p. 115).

8 Pêcheux e Fuchs (1975) afirmam que a formação discursiva “determina o que pode e deve ser dito (articulado sob a forma de uma harrenga, um sermão, um panfleto, uma exposição, um programa etc) a partir de uma posição dada numa conjuntura, isto é, numa certa relação de lugares no interior de um aparelho ideológico, e inscrita numa relação de classes” (1997, p. 166-167)

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