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Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 03 Nº 05 – 2007

ISSN 1809-3264

tornando o púlpito um veículo para imprecações públicas e ideológicas. Muitas vezes, apresentava tanto discursos fervorosos que transpareciam suas preocupações sociais como sua defesa pela missão apostólica e libertadora do homem.

Deixou importantes obras que refletiam a dualidade barroca. Escreveu profecias (História do Futuro, Esperanças de Portugal e Clavis Prohetarum), cartas (mais de quinhentas, nas quais comenta os sucessos políticos da época, especialmente no que diz respeito ao relacionamento entre Portugal e Holanda, a Inquisição, os Cristãos-Novos e a situação do Brasil) e, finalmente, sermões, cerca de 200, pregados durante toda a vida, tanto em Portugal como no Brasil.

O Sermão da Sexagésima (ou do Evangelho) abre o conjunto de sermões organizados por ele mesmo em cerca de doze volumes. O jesuíta apresenta nele um plano tradicional de sermão que deveria ser adotado por todos os pregadores que, de fato, intencionassem persuadir seus ouvintes. Pregado na Capela Real, em Lisboa em 1955, Vieira criticava veemente os sermonistas que praticavam o cultismo, transformando seus textos em motivo de exaltação literária, deixando em segundo plano seu caráter de reflexão existencial e religiosa.

É no segundo capítulo do Sermão que o padre jesuíta anuncia a matéria de seu discurso: “se a palavra de Deus é tão poderosa; se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, por que não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus? Esta, tão grande e tão importante dúvida, será a matéria do sermão”. Vieira, fazendo uso de uma linguagem erudita e altamente persuasiva, sustentou a tese de que o pregador é o culpado por não conseguir converter em massa seus ouvintes ao catolicismo.

Para defendê-la segue os critérios por ele mesmo apresentados como estrutura ideal para um sermão eficiente. Não apenas o descreve sucintamente, como usa dos mesmos recursos para escrever seu próprio texto. Segundo Vieira,

Há-de tomar o pregador uma só matéria; há-de defini-la, para que se conheça; há-de dividi-la, para que se distinga; há-de prová-la com a Escritura; há-de declará-la com a razão; há-de confirmá-la com o exemplo; há-de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que hão-de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar; há-de responder às dúvidas, há-de satisfazer as dificuldades; há-de impugnar e refutar com toda a força da eloqüência os argumentos contrários; e depois disto há-de colher, há-de apertar, há-de concluir, há-de persuadir, há-de acabar. Isto é sermão, isto é pregar; e o que não é isto, é falar de mais alto (VIEIRA, 1955).

Esta descrição do “fazer-sermão” apontado por Vieira no sexto capítulo torna-se a chave para compreender sua retórica. Sua arte retórica segue a estrutura elaborada a partir de modelos gregos e de oradores evangélicos muito reconhecidos em sua cultura. Neste artigo, examinaremos o conceito e o conjunto de preceitos para construção de um sermão eficaz, como também analisaremos os recursos utilizados pelo padre na elaboração de seu Sermão.

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