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Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 03 Nº 05 – 2007

ISSN 1809-3264

Estrutura do sermão da sexagésima

A estrutura de um sermão deveria seguir aquela consagrada pela retórica. Devia orientar-se por modelos desse tipo de discurso, tais como os grandes filósofos gregos (Aristóteles, Túlio, Quintiliano) e os oradores evangélicos (São Crisóstomo, São Basílio Magno, São Bernardo, São Cipriano). É Vieira, no Sermão da Sexagésima, quem afirma serem esses os grandes mestres da arte de persuadir. Eles não só instruíam como também convenciam os ouvintes de suas verdades. Santo Antônio de Pádua e São Vicente Ferrer, para o jesuíta, foram exemplos de missionários que “fizeram frutos” no mundo.

Os sermões deviam ser construídos a partir de passos modelares rigorosamente adotados pelo pregador. Deviam compor-se de prólogo, argumentação e peroração. O prólogo, geralmente, era dividido em tema, intróito e invocação. O tema consiste na enunciação e justificativa da escolha da seqüência evangélica sobre a qual pretende fundamentar o sermão. O intróito se constitui da exposição de um plano para o sermão, ou seja, o pregador apresenta a idéia ou idéias fundamentais que deseja desenvolver. E a invocação é a parte do prólogo em que se pede auxílio e inspiração sobrenatural, quase sempre à Virgem Maria.

Na argumentação, corpo central do texto, o tema é esclarecido, confirmando-o com exemplos bíblicos, experiências pessoais, ensinamento dos doutores da Igreja, da vida dos santos ou dos filósofos e escritores pagãos, amplificando-o com causas, com efeitos e com circunstâncias. Deve-se ainda prever os argumentos contrários e refutá-los. Pelos argumentos, o pregador induz seus ouvintes a uma ação ou a uma decisão. Por fim, a pregação encaminha-se para o seu final, para a peroração, passagem em que o sermonista deve lançar suas conclusões, buscando persuadir os ouvintes.

No Sermão da Sexagésima essa estrutura é bem marcada. O seu discurso é, então, construído nas regras da paranética (prática da oratória sagrada). No prólogo, presente nos dois primeiros capítulos, Vieira aponta o tema de sua pregação que é propriamente a prática da oratória, buscando compreender porque a palavra de Deus não encontrava mais efeito entre os ouvintes. Para apresentar sua arte de persuadir, Vieira faz uma crítica aos dominicanos, adversários tradicionais dos jesuítas que vinham ganhando terreno na preferência do público devoto. Para Vieira, e deixará isso claro em seu Sermão, este deve ser pregado por quem é exemplo de vida apostólica, e não por aqueles que se dedicavam a emendar os erros, perseguindo os cristãos já existentes ao invés de converter novos fiéis.

No intróito, Vieira deixa clara a escolha do tema, definindo-o e buscando sustentação nos textos sagrados. Assim, parte do versículo bíblico “A semente é a palavra de Deus” (Semen est Verbum Dei). A partir de recursos de estilo, o padre jesuíta põe em suspenso uma dúvida: “Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus?” A partir desse questionamento procura deixar o público confuso, envolvendo-o em reflexões acerca do que propõe discutir. Já se sabe que apenas ao final se encontrará uma resposta clara para o que pretende o locutor.

Passada a fase introdutória, segue-se o desenvolvimento ou argumentação. É nessa parte que o pregador esclarece a temática proposta. Do terceiro ao oitavo capítulos, o padre apresenta seus argumentos para responder a sua proposição inicial. No terceiro capítulo, ele aponta três princípios dos quais pode proceder ao pouco caso da palavra de Deus pelos ouvintes. Seriam eles o pregador, o ouvinte ou o próprio Deus.

Seguindo a seqüência lógica de seu pensamento, Vieira afirma que a persuasão se dá quando é possível o homem entrar dentro de si e ver-se a si mesmo. Assim, no triângulo dialógico proposto pela retórica (pregador - ouvinte - Deus), o pregador concorre com a

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