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Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 03 Nº 05 – 2007

ISSN 1809-3264

pela metáfora como pelas analogias e mesmo pelas alegorias que Vieira construiu belas imagens em seu sermão, sobretudo quando narrava alguma passagem bíblica.

Não apenas as perguntas retóricas auxiliam na elaboração argumentativa como também a exemplificação. Para provar a sua verdade é preciso aclarar ao máximo seu pensamento para que o ouvinte tenha o entendimento. Os exemplos tornam a demonstração muito mais fácil de penetrar na alma e no raciocínio do ouvinte. Geralmente, para exemplificar, o pregador recorria ao texto sagrado, citando-os em latim, traduzindo-os ou não. Nele, encontrava motivo e modelo suficientes para convencer e orientar o auditório. Em outras recorria à História ou à Filosofia, ilustrando assim seu raciocínio. Um exemplo marcante do Sermão da Sexagésima é a analogia entre o sermão e a árvore. Vieira desenvolve uma série de associações entre esses dois objetos. O sermão deve ser como uma árvore: as raízes seria a fundamentação no Evangelho; os troncos, a matéria a ser tratada; os ramos, os vários discursos nascidos da matéria; as folhas, as palavras ornadas.

O padre jesuíta também faz uso de metáforas inteligentes que se constituíam em importante recurso estilístico. Visavam a esclarecer para o ouvinte passagens obscuras da doutrina católica, pois aproximavam as situações vividas pelas personagens bíblicas. Em seus sermões, as metáforas são construídas sem pendor cultista.

De fato, embora haja preferência pelo conceptismo, esta corrente se harmoniza com o cultismo no sermão de Vieira. O padre apóia-se na exploração de uma idéia que se desdobra em metáforas. Ele busca o significado da palavra, tendendo ao raciocínio, às sutilezas do pensamento, com transições, buscas ou mesmo associações inesperadas. E é a forma de sua linguagem barroca o maior triunfo de sua arte. Embora acabe se valendo de recursos cultistas, não investe exaustivamente no rebuscamento lingüístico. Sua intenção é seduzir o ouvinte pela construção intelectual, pelo uso das analogias, valorização do conteúdo. Este último seria a essência da significação do sermão que deveria ser construído com agudeza e engenho.

Também é muito usado por Vieira a alegoria, ou seja, um tipo de representação figurativa que visa a transmitir um significado outro que o expresso no literal. Trata-se de uma figura retórica que se sustenta por mais tempo e de maneira mais completa do que os detalhes apresentados em uma metáfora. As parábolas utilizadas por Vieira se constituem em uma espécie de uma alegoria curta com uma moral definida. No Sermão da Sexagésima é uma constatne o uso de parábolas para fotalecer o argumento em defesa pelo pregador. Segundo Araújo, “Vieira combina a metáfora assemelhada com a criação original, em maior profundidade, mais afeita ao conteúdo, ao realismo dogmático e eclesiástico, ao estado de convencimento das verdades oriundas do púlpito”.

Outro recurso muito utilizado é a repetição constante de idéias. É repetindo que se retoma o significado inicial em outro nível. Outras vezes, a repetição não reforça a proposição inicial, mas transforma o significado, favorecendo a ambigüidade de sentido. As repetições costumavam ser recorrentes e exaustivas. Por elas o ouvinte fixaria seu temor a Deus e obediência aos preceitos da Igreja.

Essa é propriamente uma tendência barroca cuja pintura e arquitetura apresentavam um estilo marcado por formas redondas, recorrentes, curvilíneas e reiterativas. Na literatura, a clareza das verdades do discurso ficava oculta nas excessivas reiterações. A circularidade favorecia manter atento o ouvinte, já que somente no final da peça oratória lhe era revelada a conclusão moral. Vieira tinha o cuidado constante de fechar todos os círculos e saídas para que seu ouvinte não conseguisse escapar ao aprofundamento espiritual que o conduzisse ao temor e amor a Deus, à obediência cega, à salvação do fogo dos infernos pelo alcance dos contrários do pecado (ARAÚJO, 2006).

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