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Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 03 Nº 05 – 2007

ISSN 1809-3264

Também os romanos acreditavam que os surdos eram privados de toda e qualquer possibilidade de desenvolvimento intelectual e moral. Segundo o código Justiniano, em Roma, no ano de 483 a.C., o surdo de nascimento também não podia ser educado. Foi nesta época que se estabeleceram as primeiras diferenciações dos tipos de surdez: a surdez congênita e a surdez adquirida.

Para Aristóteles, o surdo era um sujeito não capacitado para a fala, e sendo esta uma condição sine qua non para o desabrochar dos processos cognitivos, era inadmissível para o surdo a possibilidade de construção do pensamento. Essa impossibilidade de pensar, porque não falava, tornava o surdo um sujeito incapaz de ser educado, pois ele não conseguia se expressar oralmente ou, até mesmo, demonstrar aquilo que sentia a outrem. Em uma palavra, um não-humano. Fardo pesado que deveria ser conduzido por toda a vida.

Essa concepção de o surdo como um não-humano persistiu por mais de dois mil anos. Vivendo épocas de sofrimento, de privação e de pobreza extrema, o surdo não encontrava meio de desenvolver nenhuma atividade que lhe permitisse a sobrevivência, pois como não tinha acesso à educação, o trabalho lhe era vetado.

Como visto, na Antigüidade, os surdos eram percebidos de diversas formas: como pessoas punidas, marcadas e fadadas aos sentimentos de pena e de compaixão. Para Sacks (1989, p.31): “A condição sub-humana dos mudos era parte do código mosaico e foi reforçada pela exaltação bíblica da voz e do ouvido como a única e verdadeira maneira pela qual o homem e Deus podiam se falar (‘no princípio era o verbo’)”. A crença de que a pessoa surda era primitiva e não-educável persistiu até o século XV.

É somente a partir do século XVI que se encontram os primeiros registros de tentativas de como educar o surdo. Começam a ser relatados casos de preceptores que visavam a ensinar o surdo a falar, ler e escrever.

Girolamo Cardano (1579) foi o primeiro a declarar que o surdo era, sim, capaz de pensar, compreender, estabelecer relações entre as coisas e fazer representações de objetos. Suas declarações eram ancoradas num método de aprendizagem, o qual consistia na associação de figuras desenhadas para representar a realidade, constituindo, assim, um sistema lógico que viabilizava construções coerentes e denotava a existência de uma mente racional capaz de analisar idéias e elaborar conceitos a partir delas. Cardano revogou o conceito de que o surdo não pode ser ensinado. Estes foram os primeiros passos dados em direção à implantação da educação para surdos.

Pedro Ponce de Leon (1520 – 1584), monge beneditino (Espanha), foi o primeiro professor de surdos na história. Seu trabalho serviu como ponto de referência para outros educadores de surdos. Dedicou a maior parte de sua vida a educar os surdos que eram filhos de nobres. Ele os ensinou a falar, ler, escrever, a rezar e conhecer as doutrinas do Cristianismo. Desenvolveu uma metodologia de educação de surdos que incluía datilologia, escrita e oralização, e também fundou uma escola de professores surdos.

O espanhol Juan Pablo Bonet, em 1620, publicou, na Espanha, o primeiro manual de educação de surdos, intitulado “Redução das letras e a arte de ensinar a falar os mudos”, que trata da invenção do alfabeto manual de Ponce de Leon.

No século XVIII (1750), o abade francês Charles Michel de L’Epée inicia a instrução formal de duas crianças surdas, obtendo, com esta instrução, um grande sucesso. Seu trabalho baseava-se na utilização de sinais, em um sistema que incorporava a língua falada, gerando os “Sinais Metódicos”. O principal objetivo desse método era aproximar o surdo da língua francesa. Devido ao êxito obtido com o uso do sistema desenvolvido, L’Epée transforma sua residência na primeira escola pública para surdos, o “Instituto de Surdos e Mudos de Paris”, utilizando, no trabalho pedagógico, uma abordagem gestualista.

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