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Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 03 Nº 05 – 2007

ISSN 1809-3264

um destes recursos comunicativos para interagir com alguém? Ainda que ela saiba alguns gestos, muitas vezes criados, na interação/interlocução mãe-criança surda, uma linguagem, por assim dizer, umbilical, eles são compartilhados apenas naquele contexto. Esses gestos, por não serem entendidos por uma outra pessoa, causam estranhamento.

Face às críticas feitas à adoção da Comunicação Total na educação de surdos, são iniciadas no Brasil, as primeiras discussões sobre a implantação do bilingüismo enquanto proposta educacional a ser utilizada nas escolas brasileiras.

4. Palavras finais: rastros de poder

Fazendo uma espécie de digressão no que respeita à educação de surdos, apresentam-se duas fases que podem ser claramente delineadas: na primeira fase (Antiguidade), o surdo é visto como não-humano e, portanto, não-educável; já na segunda fase (a partir do século XVI), o surdo é concebido como educável, porque humano.

Ao examinar essa história, verifiquei que avanços até ocorreram, porém lentamente, desde a época dos antigos egípcios, na qual se acreditava que o surdo era incapaz de aprender, um não-humano, até os dias de hoje quando se buscam formas de promover seu acesso à língua, à educação e à sociedade.

A educação do surdo, a meu ver, apresenta-se como uma grande colcha de retalhos, em que, cada parte do tecido foi sendo costurada de acordo com a mudança de atitudes frente aos surdos. Primeiro, pelo descuido e pela omissão da família e dos responsáveis por sua educação. Segundo, pelos sentimentos de compaixão e de proteção em relação a esse aluno, visto, então, como alguém destituído de inteligência e, por assim dizer, limitado para conduzir a própria vida. Terceiro, pela preocupação em lhe oferecer uma educação seja à parte (asilos, escolas especiais), seja integrada (escolas comuns).

O discurso veiculado pelos mentores que se comprometem com a educação de surdos, por um lado, propõe que o surdo tenha acesso aos conteúdos curriculares, ao espaço escolar e, até mesmo, à língua de sinais e à língua majoritária nas práticas pedagógicas fomentadas na escola, porém, por outro lado, excluem os surdos de tais práticas quando lhes punem com um contexto concebido e construído para ouvintes.

A escola, assim como o Panóptico de Bentham (1748-1832) discutido por Foucault (1975/1999, p.169), passa então a ser “um local privilegiado para tornar possível a experiência com homens, e para analisar com toda certeza as transformações que se pode obter neles”.  

A escola poderá constituir-se, do meu ponto de vista, em um aparelho de controle sobre seus próprios mecanismos. Em sua torre de comando (sala de aula), o professor pode vigiar todos os alunos, também poderá julgá-los constantemente, modificá-los em seu comportamento e impor-lhes métodos considerados melhores.

Não se pode esquecer que, essa educação oferecida ao surdo, ao longo dos séculos, era norteada ora pela língua oral ora pela língua de sinais. A abordagem educacional (oralista ou gestual) dependia incondicionalmente de quem a conduzia. Caso fosse partidário do uso exclusivo da língua oral, esta era tomada como fio condutor da educação do aluno surdo. Caso fosse simpatizante da língua de sinais, esta era adotada como instrumento de trabalho na sala de aula.

Um fato não me é possível omitir: os gestos – como antes eram chamados, ou a língua de sinais, como hoje é denominada - a língua do surdo sempre foi utilizada como um artefato secundário para subsidiar a educação desse aluno, independentemente de quando essa língua ainda não era vista como língua propriamente dita, até os dias de hoje em que ela foi reconhecida como língua da pessoa surda através da LEI Nº 10.346, de 24

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