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Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 03 Nº 05 – 2007

ISSN 1809-3264

organizar o romance sem omitir, desde o início, o autor do crime, já que o leitor mergulha na consciência do assassino durante toda a narrativa. A motivação também foge ao lugar comum, sendo peculiar o fato de Raskólnikov não usufruir dos objetos que rouba após o assassinato. É interessante notar também que o motivo do crime só é revelado bem após a execução, quando o juiz de instrução Porfíri inicia um diálogo com Raskólnikov a respeito do artigo que o protagonista escreveu.     

Dostoiévski atento às vozes do seu tempo, teria se inspirado na realidade para retratar o crime ideológico de Raskólnikov. Como ilustra Joseph Frank, diversas reportagens de jornal da época noticiavam uma série de assassinatos cometidos por estudantes: “Os crimes destacados foram cometidos a sangue frio e após cuidadosa premeditação; não foram passionais, ou fruto de vingança, ou de crua rapacidade; foram executados com diligência por pessoas supostamente de consciência refinada pela educação” (FRANK, 2003, p.107). Se transposto para o plano da obra, é este o contexto do crime de Raskólnikov. É aí que surge a idéia, elemento de suma importância quando se trata de Dostoiévski e que será tratado mais detalhadamente ao longo deste texto.

Tratar-se-á agora da forma. A partir da análise da descrição do crime, emergem os elementos associados à polifonia e que fazem de Dostoievski um escritor original no quesito forma: multiplicidade de vozes, interação dialógica de vozes e consciências, diferente enfoque sobre a narração, nova posição do autor, autonomia e inconclusibilidade do herói, predominância da autoconsciência, heteroglossia.

O ato criminoso é descrito, em terceira pessoa, rapidamente pelo narrador se comparado com os monólogos interiores e os diálogos que predominam no romance.  A execução da usurária, o roubo e o assassinato de Lisavieta, irmã da primeira vítima, tudo ocorre em três páginas. O narrador é preciso e direto, não se estende em pormenores – como longas descrições do ambiente, das características físicas e do estado emocional das personagens - colocando o mínimo necessário para a condução da narrativa, como bem observa Carlos Alberto Faraco parafraseando Bakhtin. O primeiro homicídio, por exemplo, é revelado em três parágrafos, de maneira objetiva, como um jornalista que testemunha um crime e o descreve na página do jornal:

Tirou completamente a machada de baixo do casaco, brandiu-a com as duas mãos, sem se aperceber do que fazia, e, quase sem esforço, com um gesto maquinal, deixou-a cair sobre a cabeça da velha. Estava esgotado. Mas ainda mal acabara de dar o golpe, quando lhe voltaram as forças.

Como sempre, a velha estava de cabeça nua. Os seus escassos cabelos brancos, disseminados e distantes, gordurosos e oleosos, também estavam como sempre entrançados em forma de rabo de rato e presos por um dente de pente, formando carrapito sobre a nuca.

Deu-lhe o golpe na saliência do crânio, para o que contribuiu a baixa estatura da vítima. Continuava ainda segurando o objeto de penhor numa das mãos. A seguir feriu-a pela segunda e pela terceira vez, sempre na saliência do crânio. O sangue brotou como de um copo entornado, e o corpo tombou para a frente, sobre o chão. Ele se deitou para trás para facilitar a queda e inclinou-se sobre o rosto da velha: estava morta. As pupilas dos olhos, dilatadas, pareciam querer saltar-lhe das órbitas; a fronte e o rosto contorciam-se nas convulsões da agonia. (DOSTOIÉVSKI, 1979, p.93)12

A partir disso, constata-se que o crime, a ação, não é tão relevante quanto o castigo que se reflete na consciência de Raskólnikov e dialoga com outras consciências. Ou seja, o

12 As citações de trechos da obra Crime e Castigo estão todas grafadas em itálico.

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