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Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 03 Nº 05 – 2007

ISSN 1809-3264

que é notório em Crime e Castigo é o antes e o depois do crime, a emergência das vozes autônomas e a relação que se estabelece entre elas.  

Isso porque o estado de espírito das personagens, suas idéias e conflitos brotam da autoconsciência das mesmas e a partir do diálogo travado entre essas vozes plenivalentes, como caracteriza Bakhtin. Plenivalentes porque não existe uma voz que se sobrepõe às outras; todas estão em posição de igualdade e em relação dialógica:

Somente na comunicação, na interação do homem com o homem revela-se o ‘homem no homem’, para outros ou para si mesmo (...) Nos romances de Dostoiévski tudo se reduz ao diálogo, à contraposição dialógica enquanto centro. Tudo é meio, o diálogo é o fim. Uma só voz nada termina e nada resolve. Duas vozes são o mínimo de vida, o mínimo de existência (BAKHTIN,1981, p.222-23).  

As características das personagens se revelam, então, a partir do que elas pensam de si (explicitado nos discursos interiores, nas autoconsciências) e a partir do que os outros pensam dela, tendo em vista o primado da alteridade em Bakhtin, como coloca Carlos Alberto Faraco no vocabulário hegeliano: “o eu-para-mim-mesmo se constrói a partir do eu-para-os-outros”. As relações dialógicas e a definição do outro ficam explícitas no primeiro monólogo interior de Raskólnikov que ocupa seis páginas. O protagonista

inunda com essas palavras dos outros o seu discurso interior, complexificando-as com os seus acentos ou revestindo-as diretamente de um novo acento, travando com elas uma polêmica apaixonada. Graças a isto, seu discurso interior se constrói como um rosário de réplicas vivas e apaixonadas a todas as palavras dos outros que ele ouviu e que o tocaram, reunidas por ele a partir da experiência dos últimos dias. Trata por ‘tu’ a todas as pessoas com quem polemiza, a quase todas ele lhes devolve suas próprias palavras com tom e acento modificados (BAKHTIN, p.209-10)   

No primeiro monólogo interior, portanto, o herói dialoga com a mãe e com a irmã Dúnia após ler a carta escrita pela primeira. No exemplo, a voz da mãe emerge tal qual escrita na carta e o diálogo com ambas no terreno da consciência de Raskólnikov é explícito:

‘Bem, assim, dessa maneira, poderei traçar a sua felicidade, pagar-lhe, torná-lo depois ajudante notário, resolver todo o seu futuro; e até é muito possível que, com o tempo, venha a tornar-se rico, honrado e respeitado, e que venha até a tornar-se um homem celébre!’ E a mãe? Para ela tudo se reduz ao seu Rodka, e ao seu admirável Rodka, ao primogênito! Por um tal primogênito, como não sacrificar até uma filha sua? Oh, doces e injustos corações! (DOSTOIÉVSKI, 1979, p.55)

Ainda neste monólogo, Raskólnikov dialoga com personagens surgidos no início da narrativa, como Marmieladóv: “’Compreende, meu senhor, o senhor compreende o que quer dizer isso de não ter para onde ir?’, de repente veio-lhe à memória a pergunta que Marmieladóv lhe dirigira na noite anterior. ‘Por que todo homem precisa ter algum lugar aonde ir?”’ (DOSTOIÉVSKI, 1979, p.57). E interage – no âmbito da consciência -, também com Sônia, que até então fora apenas mencionada pelo pai Marmieladóv, não tendo ainda estabelecido nenhuma relação física, concreta com o herói: “Chegaríamos, inclusivamente, a resignar-mos com o destino de Sônietchka! Sônietchka! Sônietchka! Eterna Sônietchka Marmieládova, enquanto o mundo existir! Já mediram ambas, bem, a extensão do sacrifício? E Dúnia terá forças?” (DOSTOIÉVSKI, 1979, p.55)

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