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Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 03 Nº 05 – 2007

ISSN 1809-3264

Nesse turbilhão de idéias, Raskolnikóv define algumas personagens, como a irmã Dúnia. Salienta-se que a idéia é mostrar que as características das personagens emergem da autoconsciência e do dialogismo estabelecido na narrativa dostoiveskiana, e não na voz do narrador ou do autor. Neste caso, Dúnia enquanto mulher digna, íntegra, mas que se sacrifica pelo outro, aparece na voz de Raskolnikóv:

E ainda que o senhor Lújin fosse feito de ouro puro ou talhado em diamante, também ela nunca consentiria em ser a concubina legal do Senhor Lújin! Então porque consente agora? Onde está o enigma? A coisa é clara: pela sua pessoa, para sua comodidade, nem sequer para salvar-se da morte, não se venderia ela; mas, em compensação, por outrem, sim, vende-se! Vende-se por um ser ao qual ama e respeita! Aí está a explicação de tudo: vende-se pelo irmão e pela mãe! (DOSTOIÉVSKI, 1979, p.55)

Raskolnikóv também é descrito na voz do colega Razumikhin como um sujeito paradoxal. A definição não pode ser considerada plena e acabada, pois parte de um ponto de vista: o do amigo fiel para quem não cabia a idéia de que Raskolnikóv pudesse ter cometido um crime. A caracterização no viés do colega é apresentada em um diálogo estabelecido entre Razumikhin, Dúnia e a mãe do herói Pulkhiéria Alieksándrovna:

Áspero, severo, altivo e orgulhoso; nos últimos tempos (e pode ser que até já muito antes) tornou-se rabugento e neurótico. Lá generoso e bom é ele. Não gosta de exteriorizar os seus sentimentos e prefere proceder com dureza a revelar por meio de palavras aquilo que guarda no seu coração. Além disso, às vezes não é nada neurótico, mas apenas frio e de uma insensibilidade que toca a desumanidade (DOSTOIÉVSKI, 1979, p.246)

Bakhtin enfatiza, portanto, que o princípio de construção artística da personagem dostoievskiana é a autoconsciência. A partir disso, a voz do autor e do narrador também se posicionam em relação de igualdade com a das personagens, estabelecendo-se entre todas elas uma relação dialógica:  

Dostoiévski nunca deixa nada que tenha a mínima importância fora dos limites da consciência das suas personagens centrais (isto é, daqueles heróis que participam em pé de igualdade dos grandes diálogos dos seus romances); ele os coloca em contato dialógico com todo o essencial que faz parte do universo dos seus romances. Cada ‘verdade’ alheia, representada em algum romance, é infalivelmente introduzida no campo de visão dialógico de todas as outras personagens centrais do romance (BAKHTIN, 1981, p.62)

O campo de visão do narrador não lhe permite reter nenhum excedente, ou seja, informações alheias aos heróis, pois o autor não visa a inserir na obra o seu julgamento. Isso contribui para a sensação de independência do herói em relação ao autor, já que a voz deste não se faz sentir no sentido de dar acabamento, de determinar as personagens, de coisificá-las, mas como orquestrador dessas diferentes vozes que interagem na obra.

A nova posição artística do autor em relação ao herói no romance polifônico de Dostoievski é uma posição dialógica seriamente aplicada e concretizada até o fim, que afirma a autonomia, a liberdade interna, a falta de acabamento e solução do herói. Para o autor o herói não é um ‘ele’ nem um ‘eu’, mas um ‘tu’ plenivalente, isto é, o plenivalente ‘eu’ de um outro (um ‘tu és’) (BAKHTIN, 1981, p.53)  

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