X hits on this document

Word document

Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas ... - page 81 / 160

519 views

0 shares

0 downloads

0 comments

81 / 160

Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 03 Nº 05 – 2007

ISSN 1809-3264

Esse conjunto múltiplo e heterogêneo de vozes sociais captadas da realidade pelo escritor – e refratadas no plano da obra - compõe o conceito de heteroglossia. O autor não se posiciona mais em relação ao herói e seu mundo, mas em relação à heteroglossia, já que seu papel é conferir unidade a essas diferentes línguas sociais.

    A autonomia do herói adquirida a partir da construção de sua imagem por meio da autoconsciência confere, além de autonomia, um caráter inconcluso a ele. O romance - que se passa de acordo com o tempo e a lógica da mente - dá forma a um personagem paradoxal. Na definição do amigo Razumikhin, é como se em Raskólnikov “altercassem dois caracteres desencontrados, que se manifestassem alternadamente” (DOSTOIÉVSKI, 1979, p.246). Raskólnikov, antes de cometer o crime, tem a pretensão de ser um homem extraordinário, de acordo com a sua teoria. Após o crime, e atormentado por conflitos morais, embora não arrependido, compara-se a “um piolho ainda mais repugnante e indigno do que o piolho assassinado” (DOSTOIÉVSKI, 1979, p.315), um fraco incapaz até mesmo de dar cabo a vida como o fez Svidrigáilov.

Em outro momento da narrativa, o leitor depara-se com um Raskólnikov sensível que acorda em pânico ao ver-se, em sonho, menino, diante de um cavalo sendo açoitado. Uma cena bem mais extensa e que comove mais do que a do próprio crime, o que atesta a irrelevância da ação homicida em relação aos tormentos da consciência:

(...) Ele se dirigiu correndo para o animal, avançou e pôde ver como batiam nos olhos do cavalo, nos próprios olhos! Pôs-se a chorar. Sentiu o coração oprimido e as lágrimas saltaram-lhe. Uma das chicotadas roçou-lhe a cara, mas ele nem sentiu; erguia as mãos, gritava, voltava-se para o velho de barba branca que abanava a cabeça, condenando tudo aquilo (...) O golpe foi certeiro; o animalzinho cambaleia, recua, esforça-se ainda por puxar, mas a alavanca torna a cair sobre o seu dorso e tomba então finalmente por terra, como se lhe tivessem desconjuntado as quatros extremidades de uma só vez (...) O pobre animal estende o focinho, respira com dificuldade, e morre (...) Mas o rapazinho lívido parece tresloucado. Lançando um grito, abre caminho por entre a gente, até a égua, pega-lhe no focinho morto, ensangüentado, e beija-o nos olhos e nos lábios...

- Bátiuchka, por que é que eles mataram o cavalinho? – soluça, e as palavras saem do seu peito opresso transformadas em gritos. (DOSTOIÉVSKI, 1979, p.71-72)

E quando acorda: “Louvado seja Deus, foi apenas um sonho! – exclamou, sentando-se ao pé duma árvore e lançando um profundo suspiro. – Mas que isto? Estarei com febre? Que sonho tão terrível!” (DOSTOIÉVSKI, 1979, p.72)

Raskólnikov também surpreende quando, por um lado, questiona o seu amor pela família – a mãe e a irmã – considera-se incapaz de amá-las em determinado momento da narrativa: “Minha mãe, minha irmã, como vos amei! Porque lhes tenho ódio agora? Sim, odeio-as de um ódio físico” (DOSTOIÉVSKI, 1979, p.315). Mas, por outro, demonstra imensa generosidade e compaixão com Marmieládov e família. Socorre o funcionário bêbado que havia sido atropelado por uma carruagem e ainda contribui com vinte rublos para o funeral de Marmieládov, mesmo também sobrevivendo com sérias dificuldades financeiras. No início da narrativa, após conhecer os parentes do pai de Sônia, Raskolnikóv, sorrateiramente, repousa o troco de um rublo na janela da família. Logo depois, o compadecido Raskólnikov vai cometer um crime a sangue frio. Embora tenha matado a agiota de uma maneira brutal, é interessante reforçar que o animal açoitado parece tocar e perturbar mais o protagonista do que a forma como ele assassina Alíona Ivânovna, a machadadas. Quando ele desperta do sonho com o cavalo, o narrador interpela: “Parecia-lhe que tinha o corpo todo moído, a alma cheia de dor e negrura”

Document info
Document views519
Page views523
Page last viewedSat Jan 21 02:54:08 UTC 2017
Pages160
Paragraphs2338
Words79461

Comments