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Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 03 Nº 05 – 2007

ISSN 1809-3264

(DOSTOIÉVSKI, 1979, p.72). Portanto, o personagem mostra-se paradoxal, já que não há uma voz que lhe impõe uma definição acabada, conclusiva. A sua construção se dá de acordo com o turbilhão confuso da mente humana, lugar de conflito de idéias.

Em relação à idéia, Crime e Castigo difere-se do romance de tipo monológico. Este tem um tom univocal em que uma idéia é afirmada ou negada claramente pelo autor que é o único ideólogo em questão. As idéias das personagens aparecem como manifestações caracterizantes, que atuam na moldagem, na determinação de um tipo social. Isso porque o autor do romance monológico não assume aquela nova posição característica da polifonia em que a sua voz é equivalente às demais vozes que permeiam a obra. No romance monológico, a voz do autor se sobressai e dá fechamento ideologicamente conclusivo à obra. Edward Lopes promove uma distinção sistemática, no âmbito ideológico, entre o romance monológico e polifônico:

São monológicos os romances que possuem vários personagens, que são sempre veículos de posições ideológicas, para exprimir unicamente uma visão de mundo, uma ideologia dominante, a do próprio autor da obra; assim, embora nesses romances muitos personagens falem, todos eles exprimem a voz do autor; de acordo com Bakhtin, Tolstoi é o representante máximo desse tipo de narrativa longa na Rússia.

São polifônicos os romances em que cada personagem funciona como um ser autônomo, exprimindo sua própria mundividência, pouco importa coincida ela ou não com a ideologia própria do autor da obra; a polifonia ocorre quando cada personagem fala com a sua própria voz, expressando seu pensamento particular (...) (LOPES, 2003, p.74)

O fato é que, como coloca Bakhtin, Dostoiévski sabia dar voz ao outro, aos seus heróis, homens de idéias. Ou seja, o fato de Dostoiévski propôr a teoria dos homens extraordinários X homens ordinários para Raskólnikov, não significa que ele compactuasse com tal idéia. O mais provável é que, como foi mencionado acima com base no texto de Joseph Frank, o autor se fundamentou em um fato social da época – a série de crimes cometidos por estudantes – para pensar em um personagem como Raskólnikov.       

É importante reforçar que, diferentemente do universo monológico, a idéia do herói não serve para determinar um tipo social. Raskolnikóv, por suas idéias, não pode ser rotulado enquanto raznotchintsy ou homem novo da segunda metade do século XIX, mais especificamente 1860 (década de publicação de Crime e Castigo) que, segundo Marshall Berman, corresponde a uma nova geração e um novo estilo de intelectuais:

Os raznotchintsy, homens de várias origens e classes, termo admnistrativo para todos os russos que não pertenciam à alta ou à baixa nobreza [...] Quando os raznotchintsy realmente apareceram – filhos de sargentos, alfaiates, padres de vilas e funcionários -, irromperam em cena com agressividade Orgulhavam-se de sua vulgaridade franca, de sua falta de requinte social, de seu desprezo por tudo que fosse elegante. O retrato mais notável do ‘novo homem’ da década de 1860 é Bazarov, o jovem estudante de medicina em Pais e Filhos, de Turguenev. Bazarov derrama injúrias cheias de desprezo contra toda a poesia, arte e moralidade, contra todas as instituições e crenças existentes (BERMAN, 1996, p.204)

Entretanto, Raskolnikóv que questiona alguns princípios morais quando defende que alguns homens teriam “licença” para matar em prol de um bem maior para o futuro da humanidade, não se enquadra em um tipo como o raznotchintsy, pois, como já foi dito, Dostoievski confere a seu herói um caráter inconcluso. “A peculiaridade do herói, no

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