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Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 03 Nº 05 – 2007

ISSN 1809-3264

melhor Dostoievski, está no fato de ele manter um núcleo inacabado e irresoluto; de ele resistir ao seu acabamento estético” (FARACO, 2005, p.46).  O herói de Dostoiévski sempre procura destruir as palavras dos outros sobre si que o tornam acabado. É o que se observa entre Lújin e Raskólnikov. O primeiro, em carta à irmã e à mãe do herói, insinua que Raskólnikov estaria envolvido com “uma moça de má fama”, no caso Sônia, que era prostituta. Além de desmentir o pretendente da irmã, Raskólnikov o desmacara ao tentar acusar Sônia de roubo quando, na verdade, Lújin plantou a prova. Ao provar a desonestidade do rival, o protagonista se desenquadra das calúnias proferidas por Lújin.  

Em relação à teoria de Raskólnikov, pode-se aplicar outra teorização bakhtiniana em torno da idéia. Para ele, a idéia é um acontecimento vivo que deve circular entre duas ou mais consciências, não devendo ater-se a uma pessoa apenas. É o que se observa no trecho a seguir em que Raskólnikov explana a sua teoria ao juiz de instrução Porfíri, após este indagar de maneira provocativa em que consistia a idéia do estudante publicada no artigo:

A meu ver, se as descobertas de Kepler e de Newton, em conseqüência de certas circunstâncias, não tivessem chegado ao conhecimento dos homens de outra maneira senão mediante o sacrifício da vida de um, dez, cem ou mais homens, que se opusessem a essa descoberta ou se atravessassem no seu caminho como obstáculos, Newton, então, teria tido o direito e até o dever... de eliminar esses dez ou esses cem homens, a fim de que as suas descobertas chegassem ao conhecimento de toda a humanidade (DOSTOIÉVSKI, 1979, p.297)

Durante oito páginas, interpelado por Porfíri principalmente, mas também por Razumikhin, emerge desse diálogo a idéia de Raskolnikóv, que ganha detalhes e novas elucidações a cada questionamento ou comentário dos interlocutores.

 A idéia, como a considerava Dostoievski artista, não é uma formação psicológico-individual subjetiva com ‘sede permanente’ na cabeça do homem; não, a idéia é interindividual e intersubjetiva, a esfera da sua existência não é a consciência individual mas a comunicação dialogada entre as consciências [...] Como a palavra, a idéia quer ser ouvida, entendida e ‘respondida’ por outras vozes e por outras posições. Como a palavra, a idéia é por natureza dialógica (BAKHTIN, 1981, p.73)

Para finalizar, tratar-se-á do enigmático desfecho da obra Crime e Castigo. Bakhtin refere-se ao “epílogo convencionalmente monológico de Crime e Castigo” (BAKHTIN, 1981, p.77). A leitura da obra, de fato, permite esta conceituação. Raskólnikov regenera-se, livra-se dos tormentos ao descobrir o seu amor por Sônia e a narrativa sugere um final e um futuro feliz e, portanto, conclusivo quando descreve:

Levantou-se rapidamente e, muito trêmula, fitou Raskólnikov; mas bastou-lhe aquele olhar para compreender tudo e uma felicidade imensa brilhou-lhe nos olhos radiantes. Não havia a menor dúvida de que aquele homem a amava com um amor infinito (...) Estavam ambos pálidos e arquejantes, mas nos seus rostos doentios brilhava já a aurora de um futuro renovado, de uma completa ressureição (...) Raskólnikov ressuscitara e, o que era mais importante, sabia e sentia-o em todo o seu ser (DOSTOIÉVSKI, 1974, p.306)

Entretanto, Dostoiévski desmistifica o conclusivo “felizes para sempre” quando inclui na voz do narrador que “Raskólnikov ainda ignorava que a nova vida não

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