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Revista Querubim – revista eletrônica de trabalhos científicos nas áreas de Letras, Ciências Humanas e Ciências Sociais – Ano 03 Nº 05 – 2007

ISSN 1809-3264

esperança de reversão do quadro parece desvanecer-se imediatamente em (8) Já não há esperança para muitos.

Tomando-se por base a afirmação de Kristeva (apud Koch:1991:532) de que “qualquer texto se constrói como um mosaico de citações e é a absorção e transformação de um outro texto”, podemos dizer que a partir da justaposição de segmentos textuais que estruturam a orientação argumentativa do texto de A G., aluno-sujeito diz o seu texto apoiado num processo discursivo de intertextualidade, trazendo para dentro da cena enunciativa, reconstruções de enunciados inscritos em um contexto sociocultural, colocados em circulação e cristalizados na memória discursiva dos interlocutores.

Ativando um conhecimento procedural para a articulação textual, marcado pelos enunciados intertextuais, o aluno recorre a expressões e fragmentos de textos na constituição das construções interrogativas que marcam as suas reflexões e indagações diante dos acontecimentos em sua própria pátria (sinalizados a partir de (3) Podemos indagar). As partes constituintes do texto expressas através da seqüência das construções de enunciados interrogativos gravitam em torno do núcleo temático, possibilitando que seja mantida a coerência global do texto. marcando as reflexões e indagações de A G diante dos acontecimentos em sua própria pátria (sinalizadas a partir de (3) Podemos indagar:) em (3) Condenados por ironia do destino / filho do campo; (6) Pátria varonil / que país é esse?; (7) terra para todos; (11) terra prometida; (12) Que país é esse João sem terra? Onde tu nas cestes e criastes, hoje parece que te rejeita?

A mesma Pátria varonil, grafada convencionalmente com maiúscula em textos escolares (poemas e hinos cívicos), dentro de um discurso escolar que reverencia a pátria como merecedora de admiração e respeito, para A G., ela, pátria, parece não manter a mesma reciprocidade de tratamento para com seus próprios filhos, povo, que um dia foi infantil (6), os Brasileiros, verdadeiros brasileiros, brasileiros de São Paulo, brasileiros de Minas Gerais, e outros tantos estados brasileiros (10) que vivem a situação de “João sem terra”, condenados por ironia do destino (3) e rejeitados pela mesma Pátria que exige um sentimento de respeito- Que país é esse, João sem terra? Onde tu nascestes e criastes, hoje parece que te rejeita? (12).

Considerando que a compreensão de um texto é muito mais que a simples decodificação dos elementos lingüísticos, que o leitor estabelece inferências a partir dos elementos formais procurando preencher as lacunas para construir um dos sentidos e que a “inferência é a operação pela qual, utilizando seu conhecimento de mundo, o receptor (leitor/ouvinte) de um texto estabelece uma relação não explícita entre dois elementos (...) deste texto que ele busca compreender e interpretar” (Koch e Travaglia, 1990:65), ao construir seu texto, A G. recorre, intertextualmente, a uma expressão do texto de apoio - sub-João (5), estabelecendo uma conexão explícita entre a condição subhumana de um “João sujo de terra, sub-João” (verso 15),ou seja, todos os brasileiros sem terra que vivem assim nesse mundo (=Brasil) e os ricos da terra [que] estão cada vez mais rico (5), uma das prováveis causas da mazela social que assola esse ‘mundo’, uma das marcas de desigualdade social.

Estabelecendo inferências, dialogando com outros textos e, evocando um acontecimento que já foi objeto de discurso e ressuscitando “no espírito dos ouvintes o discurso no qual este acontecimento era alegado, com as ‘deformações’ que a situação presente introduz e da qual pode tirar partido” (Pêcheux, 1969:77), através do enunciado de expressões sacralizadas ou “fórmulas dominantes” (Maingueneau, 1987) como ‘ironia do destino’, / ‘Pátria varonil’ / ‘Que país é esse?’ / ‘terra prometida’ / ‘terra para todos’ (bandeira de luta do MST), o aluno faz, uma re-apresentação daquilo que havia sido recalcado, numa perspectiva crítica.”

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