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8- UM CERTO TIPO DE BRASILIDADE

A abertura, tal como a conhecemos, foi ouvida pela primeira no Scala, em 2 de setembro de 1871, num espetáculo regido por Ettore Gelli, no qual Villani contracenava com Enrichetta Berini. O modelo óbvio dessa página sinfônica, de factura artesanal impecável, e de inequívoca força dramática, é a abertura da Forza del Destino verdiana. Não há nela nenhum material melódico especificamente brasileiro; mas é um tipo de música que de tal forma incorporou-se à consciência nacional – até mesmo pelo uso oficial que lhe foi dado como o prefixo da Hora do Brasil – que adquiriu um tipo muito peculiar de “brasilidade”. trata-se, porém, de obra que, pela fama adquirida, viu-se supervalorizada, em detrimento de outras criações do compositor. Leo Laner foi um dos primeiros a dar-se conta disso:

“O derrotismo de alguns brasileiros leva-os a afirmar, antes de um exame sério, que a ópera se estréia de Carlos Gomes é a página melhor do compositor. Parece-nos que, ao contrário, todos deveríamos estar de acordo em reconhecer em Il Guarany a ópera mais fraca do mestre...”

Não é o caso de ser assim tão rigoroso, mas O Guarany é, de fato, musicalmente desigual. Tem momentos de grande força de inspiração, como os duetos “Sento una forza indomita” e “Perchè di meste lagrime”, a cena “O Dio degli Aymorè”, ou o coro “Aspra, crudel terribile”. Essas páginas bem escritas convivem com árias convencionais e de estilo velhusco, como “Gentile di cuore”, cantada por Ceci. Há trechos de gosto duvidoso, como a ária “Senza tetto senza cuna”, do barítono. Ou momentos que chegam a ser vagamente ridículos, como o ballabile dos aimorés, em que a tentativa de usar ritmos reminiscentes da música indígena choca-se com o tom banal e italianado das melodias, dentro do “gênero ‘pitoresco’, que constituía um ingrediente indispensável da complexa cozinha que era a encenação do grand-opéra” (Conati). Mas é inegável – como o assinala Budden – o frescor trazido à ópera italiana por esse estrangeiro, que a enfrentava “sem noções preconcebidas”. Em “The Collapse of a Tradition”, no vol. 2 da obra citada, ele escreve:  

“Suas idéias musicais são um tanto ingênuas, para não dizer fora de moda; mas ele percebia, melhor do que os italianos de sua geração, os problemas de ritmo e de continuidade dramática. Compreendia, como só Verdi na época era capaz de compreender, as implicações formais da diminuição da ênfase na cadencia final de um número que era uma característica da evolução operística do século XIX. O resultado é que as suas óperas avançam de modo ágil e confiante, enquanto as de Petrella, por exemplo, tropeçam e se tornam difusas. Quem pode duvidar que foi a decisão de Gomes

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