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“Humanamente falando, é uma bobagem inominável; e era difícil, com tais mediocridades epidérmicas de sentimentos tempestuosos, e esse texto paupérrimo de alma, criar alguma obra-prima de significação mais geral".

15- TEMAS RECORRENTES

O artigo de Mário de Andrade, escrito para a Revista Brasileira de Música, foi recolhido em Carlos Gomes: uma Obra em Foco, da Funarte, trabalho coletivo em comemoração ao sesquicentenário do compositor. Particularmente notável, nesse texto, é o levantamento que Mário faz dos principais temas recorrentes utilizados na partitura, mostrando os que se referem aos corsários, a Cambro e aos amantes Paolo e Delia; mas sobretudo as diversas mutações das melodias associadas à protagonista:

– “Fosca implorante” no apelo “Ah, fratello!, cedi al grido del mio straziato cor” (aqui já se encontram, antes da Gioconda, a escala cromática descendente e os saltos bruscos da região central para a aguda, comuns na ópera de Ponchielli);

– “Fosca sinistra”, tema instrumental de caráter polifônico, que retorna em pontos clímaticos de toda a ópera;

– “Fosca raivosa”, também instrumental, que se percebe, por exemplo, na explosão do “L’aborrita rivale, da Paolo amata, all’odio mio fatal non sfuggirà”: na escala descendente com que a exposição desse tema se encerra, há uma ousada escala descendente do si bemol agudo ao ré grave, uma progressão de quase duas oitavas, totalmente desusada para a ópera italiana da epoca;

– ou o da “Fosca clemente”, já enunciado no Prelúdio, que domina no “Vieni, ecogli l’instante che alla clemenza s’apre il mio cor”.

Portanto, se há deficiências no libreto, a música as supre amplamente – e este não é o primeiro caso na ópera italiana. A Fosca, como o assinala Mário de Andrade, é a obra de um compositor confiante, animado com o sucesso, que está vivendo uma fase feliz, e sente-se com coragem para experimentar formas incomuns nos teatros italianos. Em trechos como o dueto “Già troppo al mio suplizio”, do ato II, Carlos Gomes entrelaça ousadamente melodias independentes, criando ricos efeitos polifônicos; e escreve cenas de conjunto bastante complexas, a mais imponente das quais é a do final da ópera. O comentário orquestral é muito trabalhado, com o uso de motivos recorrentes. Mas à maneira melódica verdiana, sem o desenvolvimento sinfônico do modelo wagneriano.

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