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As condições em que Maria Tudor foi escrita explicam as desigualdades de um libreto mal resolvido e as dificuldades com que o compositor esbarrou, durante a fase de gestação da partitura – de que dão testemunho as cartas trocadas com Ricordi entre 1875-77. O próprio Gomes, embora fascinado pela personagem, sentia dificuldade em encontrar o tom musical exato para descrever, de forma convincente, a personagem política responsável por um dos períodos mais negros na história inglesa e, ao mesmo tempo, a mulher apaixonada. Diz Marcus Góes:

“Ao iniciar Maria Tudor – que vai assinalar o início de longo declínio de sua carreira de compositor na Itália –, CG pensou ser aquela uma empresa fácil: aqui e ali, uma bela ária; acolá, uma canção simples e melodiosa – remember “Mia piccirella”, do Salvator Rosa –, tudo entremeado de sombrias marchas nas cordas baixas apoiadas nos fagotes e nas trompas, passar de rondas noturnas ao rufar de tambores, balés à inglesa, madrigais de corte em música salottiera. Doce engano. Teve ele de demorar-se, e muito, na composição dessa ópera, e jamais ficou satisfeito com o que havia feito, como o demonstram os drásticos cortes e modificações que levaria a cabo mesmo antes da primeira récita, e também depois dela.”

22- INTERRUPÇÕES, CABALA, MÁ ESTRÉIA

Como se isso não bastasse, ainda foi necessário interromper a composição para atender a uma encomenda urgente e irrecusável. D. Pedro II queria um hino para ser executado em Filadélfia, nas solenidades de comemoração do primeiro centenário da independência americana. Saluto del Brasile foi ali ouvido em 4 de julho de 1876. Finalmente, Maria Tudor subiu à cena do Scala, em 27 de março de 1879. E foi impiedosamente vaiada. Consta que o público sentiu-se ofendido com o fato de, na peça de Hugo, o favorito da rainha, homem totalmente desprovido de escrúpulos, ser um seu compatriota, o napolitano Fabiano Fabiani. Aliás, em 1837, ao publicar a terceira edição de seu drama, Hugo já se preocupara em ajuntar-lhe uma nota, à intenção dos leitores italianos, explicando que as duras palavras dirigidas por Maria a Fabiano não refletiam seus sentimentos pessoais sobre os homens italianos, "que nos deram Dante, Rafael e Michelangelo e, com a França, compartilham Napoleão". De resto, em 1843, ao musicar pela primeira vez o drama de Hugo, Pacini tomara a precaução de naturalizar Fabiano inglês, dando-lhe o nome de Fennimore (ver A Ópera Romântica Italiana, desta coleção).

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