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em 1998, pela gravação do maestro Luiz Fernando Malheiro, o primeiro neste século a executar Maria Tudor absolutamente sem cortes. O que se constata é que se trata de uma obra perfeitamente equilibrada que, ao mesmo tempo, faz a síntese entre a gran maniera da ópera tradicional – por exemplo, o amplo concertato “Cielo! È l’uom da me tradito...” com que se encerra o ato III – e a modernidade de escrita. Os traços inovadores se revelam com as sonoridades inusitadas do Prelúdio, no qual Conati foi o primeiro a perceber “um surpreendente sabor pré-mascagnano”. É muito rica a combinação de timbres do primeiro tema, que reaparecerá várias vezes, no corpo da obra, sempre associado a situações de mistério, de expectativa. Segue-se uma marcha em largo cantabile espressivo – “de cativante beleza na sua solenidade e em seu desenvolvimento harmônico” (Góes) –, que será ouvida no final, quando Fabiano for levado para o cadafalso. A ela se fundem habilmente outros temas da ópera.

Maria Tudor ainda é uma ópera de números e, nesse sentido, de estrutura conservadora – não correspondendo, portanto, ao gosto da platéia mais sofisticada. Mas exemplifica perfeitamente a capacidade de Carlos Gomes de caracterizar musicalmente as suas personagens. Gilberto, homem do povo, expressa-se com melodias simples, de harmonias básicas: por exemplo, no arioso “Tanti il mio cor, bell’angelo”, do ato I. Da mesma forma, as origens modestas de Giovanna são sugeridas pela factura um tanto ultrapassada de sua romança, “Quanti raggi del ciel brillar vegg’io” (ato I), de corte e melodismo donizettiano. Mas é de estilo muito moderno a mistura de recitativo e parlato que há no diálogo seguinte entre a jovem e seu tutor. Quanto a Fabiani, o sedutor vindo da ensolarada terra do canto, este se expressa sempre em melodias derramadas:

– na cena com Giovanna, “Canta sempre, canta o bella”;

– no dueto com Maria, “Colui che non canta”, que converge para a apaixonada seção “Dimmi che m'ami e guardami negli occhi”, em que a rainha expressa seu temor de que o amante a engane;

– na luminosa “Sol ch'io ti sfiori”, do ato III.

Parente próximo do Duque de Mântua – ele também, por sinal, originariamente personagem de Hugo – Fabiani é o sedutor nato, mulherengo, volúvel. Mas não um mau caráter. À sua maneira, ama a rainha, e nunca tem para ela uma só palavra áspera, mesmo quando confrontado com as mais duras acusações.

Don Gil é uma das figuras mais interessantes da galeria de personagens de Carlos Gomes, um Cambro cuja elegância aristocrática faz suas maquinações prenunciarem as de Iago e Scarpia. O único momento em que a sua linha de canto sai da declamação melódica contínua é na ária “Lugubre giocoliero”, do ato IV, em que tem de decidir se

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