X hits on this document

138 views

0 shares

0 downloads

0 comments

39 / 51

Liberdade”, estão entre as melhores páginas escritas por Carlos Gomes. Em O Escravo, são usados temas recorrentes mas, desta vez, com extrema economia de meios. Só há dois motivos que serão virtuosisticamente modificados e desenvolvidos ao longo de toda a obra. O primeiro deles, ouvido logo no início do Prelúdio, refere-se a Ilara; o segundo é o que está ligado à coragem e altruísmo de Iberê e, conseqüentemente, aos tamoios. É o motivo ouvido quando o capataz Gianfera fala dele pela primeira vez, na cena 3 do ato I: “Di quella razza indomita l’orgoglio mantiene.”. Marcus Góes chama a atenção para o fato de que são duas melodias aparentadas, como se uma decorresse da outra, e surgirão de diversas formas, fragmentadas, em variações, modulações e cantadas por diveros instrumentos da orquestra.

O caráter heróico de Iberê – um dos raros protagonistas barítonos na ópera daquele período – é de resto ressaltado tanto em sua expressiva primeira entrada, “Libero nacqui al par del tuo signor, usurpator di questo suolo!”, quanto em sua vibrante narrativa “In aspra guerra per la mia terra”, que possui “acompanhamento em quintas estupendamente bem urdido em sua tendência dissonante” (Góes). O interlúdio da “Alvorada”, na cena 4 do ato IV, tornou-se muito popular no Brasil como peça isolada de concertos sinfônicos. Essa bela página, que “descrive lo spuntare della aurora brasiliana”, revela capacidade apreciável para a evocação musical da natureza, numa linha que a liga à tradição francesa das peças instrumentais criadoras de ambientação. E deixa marca na música italiana da época: é inegável a influência sobre o “Hino do Sol” com que se inicia a Iris, de Pietro Mascagni (há em ambos a mesma gradação, em crescendo, do pianissimo ao fortissimo, para sugerir o nascer do sol, e a mesma tonalidade, maior em Gomes, menor em Mascagni).

Mas é a Ilara que o músico reserva as mais belas melodias da ópera, seja no “Ei partirà, lasciandomi nel core”, do ato I, seja na sugestiva romança “Come serenamente”, do IV, que Conati considera “o presságio de um novo estilo já prestes a manifestar-se com a Giovane Scuola”. O ponto culminante da ópera é, sem dúvida alguma, a grande cena do ato III em que a índia lembra-se de sua juventude e expressa a saudade que sente da terra natal – espelhando sentimentos que o próprio Antônio Carlos provavelmente experimentava naqueles anos atribulados. A cena se inicia com o recitativo sobre o tema de Ilara, “Alba dorata del natio mio suol” – versão modificada do original, onde estava “Cielo adorato del brasileo suolo”. Vem em seguida a ária, “O ciel di Parahyba ove sognai d’amor”, que culmina na longa frase ascendente que leva a “A te la vita, l’anima torna piangendo”, para se encerrar com a longa nota prolongada de “Meglio morir”. De esplêndido colorido orquestral, progressões harmônicas perfeitamente calculadas e

Document info
Document views138
Page views138
Page last viewedThu Dec 08 08:20:19 UTC 2016
Pages51
Paragraphs319
Words20577

Comments