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“O que importa realmente destacar, para além de eventuais analogias temáticas, é a particular predisposição de Gomes, que permanecerá constante no decurso de sua atividade como operista, a dinamizar o discurso musical, conforme as exigências da ação cênica; o sentido de seu tributo a Verdi deve ser, pois, considerado nesses termos, de funcionalidade dramática, que quer prevalecer sobre toda e qualquer pesquisa de caráter estilístico ou, mais simplesmente, linguístico.”

Já existe, portanto, em embrião, um talento teatral seguro, embora, de uma maneira geral, sejam pouco originais os resultados artísticos obtidos, mesmo porque os estudos de escrita vocal, feitos no Conservatório do Rio de Janeiro, a partir de 1860, com seu professor de Composição, o italiano Gioacchino Giannini, fazem com que Carlos Gomes seja desajeitado ao musicar um texto em português.

Menos artificial, embora a música ainda seja fortemente italianada, soa a linha vocal da ópera seguinte. Devido a adiamentos na produção, Joana de Flandres, prevista para estrear em 10 de setembro de 1863, só subiu à cena no dia 15. O libreto original, do jornalista Salvador de Mendonça, também se passa no tempo das Cruzadas e conta a história de Joana, apaixonada pelo libertino trovador Raoul de Mauleon. Ela acusa de impostor o próprio pai, o conde Balduíno, que volta da Terra Santa após muitos anos de ausência, pois não quer lhe devolver o trono, no qual pretende instalar o amante. Theresina Bayetti, Giuseppe Mazzi e Acchile Rossi, regidos por Carlo Bossoni, criaram essa segunda ópera, dedicada a Sua Majestade Imperial, D.Pedro II.

A marca verdiana ainda é forte: Conati chama a atenção para a analogia entre a cavatina “Foram-me os anos da infância” e a ária de Elvira no ato I do Ernani. Mas Luiz Heitor já vê nesta partitura acentos mais pessoais, identificando traços quase schubertianos nas modulações do “prodigioso melodismo” do jovem compositor. Uma certa flutuação básica, porém, que haveria de marcar toda a obra do compositor, foi percebida, na Joana de Flandres, pelo crítico do Jornal do Commercio que, em 17 de setembro, escrevia:

“Tem ele muita facilidade e espontaneidade na composição; essa mesma facilidade, contudo, o faz às vezes descer da altura em que poderia manter-se e cai, aqui e ali, no trivial. O estilo é puramente italiano, sendo, talvez, a falta de cunho próprio que, por vezes, faz parecer imitação o que, todavia, não é de ninguém, antes, quando muito, seria de todos.”

Em 1998, o selo independente Masterclass, com o apoio da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo, fez um lançamento de enorme importância: oito álbuns de CDs com as integrais de apresentações ao vivo das óperas de Carlos Gomes, antes só disponíveis em selos pirata estrangeiros. Nessa coleção está incluída a Noite do Castelo,

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