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o convite que Lauro Sodré, governador do Pará, lhe fizera por sugestão do senador Antônio Lemos: o de assumir a direção do Conservatório de Belém do Pará. Com o surto da borracha, Belém vivia, da mesma forma que Manaus, uma fase de esplendor econômico que fazia dela um dos pólos ativos de atividade cultural no país. No início de março de 1896, Carlos Gomes foi de trem até Lisboa, onde se submeteu a uma operação meramente paliativa. Embora os médicos lhe desaconselhassem a travessia do oceano, embarcou no Obidense – na parada em Funchal, viu pela última vez Rebouças, que veio visitá-lo no navio – e chegou a Belém em 21 de maio de 1896, “num estado geral desolador” (Góes).

A junta médica convocada por Sodré diagnosticou epitelioma, tumor maligno no tecido de revestimento da língua e da faringe. Com dificuldade, pois já não conseguia mais falar com clareza e precisava usar papel e lápis para exprimir-se, Carlos Gomes pediu a ajuda do governo do Pará para saldar as 17 mil liras de dívidas que tinha deixado na Itália. Em 5 de julho, seis dias antes de seu aniversário, já sem forças para mover-se sozinho, tomou posse como diretor do conservatório. Não saiu mais da casa onde o tinham alojado, na rua Quintino Bocaiúva. Morreu às 10:15 da noite de 16 de setembro de 1896. Depois de morto, recebeu as inúmeras homenagens oficiais que lhe tinham sido negadas em vida. O Conservatório do Pará, dirigido por Enrico Bernardi, passou a chamar-se Instituto Carlos Gomes. Em 17 de outubro, no Rio, onde missa de corpo presente foi celebrada na Igreja de São Francisco de Paula, todas as bandas se reuniram, sob a regência de Henrique Alves de Mesquita, para tocar a Protofonia do Guarany.

Na Itália, o necrológio do Corriere della Sera, em 20 de setembro, dizia haver em sua música “a imaginação dos filhos do deserto, a impetuosidade de uma natureza virgem (...) que se continham com dificuldade entre as regras do conhecimento e os limites impostos pela escola” – literatice que nada tem a ver com a realidade. Não houve nenhuma homenagem oficial. No Scala, como dissemos, sua música só voltaria a ser ouvida em 1936, por ocasião do centenário de seu nascimento. Nesse mesmo ano, Il Guarany foi regido por Edoardo Vitale no San Carlo de Nápoles; e por Túlio Serafin na Ópera de Roma. Nesta última, Peri foi cantado por Beniamino Gigli. “Fechava-se o círculo”, escreve Marcus Góes. Carlos Gomes “voltava ao ‘céu do Parahyba’, à terra da infância ‘onde esplêndido e belo o sol flameja.” Era o fim de uma vida tão pitoresca que inspirou a Rubem Fonseca uma biografia romanceada, O Selvagem da Ópera (Companhia das Letras).

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