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ambulante apregoando, na Piazza del Duomo, “Il Guarany, storia dei selvaggi del Brasile”. Na verdade, numa carta de maio de 1865 a Francisco Manuel, ele lamentava que o fechamento da Ópera Nacional, no Rio de Janeiro, o tivesse feito “perder a coragem de escrever a ópera Nacional O Guarani.” Decerto era essa a “composição importante” exigida pelo contrato da bolsa, que ele pretendia mandar para o Brasil, como demonstração do resultado de seus estudos. O que é possível é que, nas mãos do vendedor ambulante, Antônio Carlos tenha encontrado a tradução italiana, o que facilitava o trabalho do libretista2.

Inspirado nos romances em que François René de Chateaubriand evoca, idealizadamente, a vida dos selvagens da Luisiânia – Atala, Les Natchez – o livro de Alencar contém todos os ingredientes de um libreto de ópera: o triângulo amoroso, a luta do bem e do mal, os esforços heróicos de Peri para salvar a jovem portuguesa Cecília das mãos do vilão González, ou dos perigos que ela corre aprisionada pelos tamoios. Não faltam coups de théâtre, como o da flecha que trespassa a mão de González quando ele tenta violentar Ceci. Nem o pretexto aos tradicionais tableaux de genre da ópera de estilo meyerbeeriano: a oração dos portugueses; a invocação dos selvagens a seu deus; a cena do batismo de Peri, que se converte ao catolicismo para que Dom Antônio de Mariz lhe permita salvar Ceci do ataque dos índios aimorés à sua casa.

É evidente o modelo parisiense como ponto de partida para Il Guarany. Os anos 1860 tinham assistido à difusão do grand-opéra na Itália, à voga de Robert le Diable, Les Huguenots, Le Prophète, La Juive. Estreada postumamente em 28 de abril de 1865, L’Africaine de Meyerbeer – cujo tema é “exótico” como o da ópera baseada em Alencar – fizera enorme sucesso em Bolonha, em 2 de novembro daquele mesmo ano, e no Scala, em 1º de março do ano seguinte. Na temporada de 1867/68, o Scala montou Poliuto, Don Sebastiano e La Favorita, três óperas de Donizetti originalmente concebidas para Paris; e no ano seguinte, foi a vez de Roméo et Juliette, de Gounod, do Guillaume Tell, de Rossini, da Muette de Portici, de Auber. Dentro desse clima de euforia com o modelo meyerbeeriano, era compreensível o triunfo do Ruy Blas, de Filippo Marchetti e Carlo d’Ormeville, aplaudidíssimo em 1869.

Óperas de estilo parisiense, como o Don Sébastien, as Vésperas Sicilianas ou o Don Carlos de Verdi, são anteriores a Ruy Blas. Mas tinham sido escritos para o Théâtre de l’Opéra e, ao serem encenadas em casa, foram adaptadas ao gosto peninsular, como aconteceu com a versão reduzida do Don Carlo. Marchetti foi o primeiro a aplicar o modelo meyerbeeriano a uma ópera escrita especialmente para o Scala, onde ela foi

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