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ARRÁBIDA E SINTRA: DOIS EXEMPLOS DE TECTÓNICA PÓS-RIFTING DA BACIA LUSITANIANA - page 19 / 27

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variação de espessuras; foi da reactivação desta falha que evoluiu o cavalgamento de S. Luís durante a inversão da bacia Lusitaniana, daí a inclinação elevada e injecção de evaporitos que apresenta.

Tal como no Viso, na estrutura de S. Luís observa-se nítido comportamento diferencial das várias unidades litostratigráficas, agrupáveis em “pacotes” com diferentes estilos de deformação. De baixo para cima temos: 1) a Formação de Dagorda tem claramente um comportamento dúctil (aflora no núcleo do anticlinal, assim como em diferentes locais ao longo da continuação do cavalgamento para Este); 2) as unidades dolomíticas e calcárias do Jurássico inferior e médio formam um pacote, espesso, com nítido comportamento frágil e, 3) o conjunto do Jurássico superior, Paleogénico e Miocénico inferior, onde os materiais pelíticos são abundantes, apresenta novamente comportamento dúctil a dúctil-frágil.

Apesar do elevado mergulho para oeste que o eixo do anticlinal de S. Luís apresenta na extremidade ocidental, o eixo apresenta-se genericamente horizontal mas com ondulações de direcção aproximadamente N-S na zona central da estrutura, devidos a contracção paralela ao eixo do anticlinal. Esta é mais uma evidência do carácter constritivo da deformação associado a todas as principais estruturas do Sector Oriental da cadeia.

De acordo com estimativas efectuadas a partir de modelação gravimétrica de Silva (1992) e de perfis geológicos constrangidos por esta modelação e por sondagens profundas efectuadas na região do Barreiro, Kullberg et al. (2000) sugerem, a norte de S. Luís, uma profundidade entre 2,2 e 3,5 km para o nível de descolamento basal enraizado na Formação de Dagorda, regularmente inclinado para norte.

Como já foi referido, Paul Choffat considerou uma outra estrutura, independente da estrutura de S. Luís, embora na sua continuação: o Anticlinal de Gaiteiros. Apesar deste autor confirmar que apenas se observa o flanco longo (flanco Norte), considera a estrutura independente de S. Luís; isto porque as camadas do flanco normal, logo o próprio eixo, têm orientação diferente de S. Luís e idêntica à do Viso, pelo que pelas mesmas razões que tinha separado este relativamente ao Formosinho, o faz também entre S. Luís e Gaiteiros. Este autor nota que o núcleo da Serra de Gaiteiros não corresponde ao núcleo do anticlinal mas sim a um relevo de resistência relacionado com uma grande espessura de conglomerados do Jurássico superior, inclinando para Norte. Coloca a charneira do anticlinal junto ao cavalgamento, numa faixa estreita e descontínua constituída por dolomitos do Jurássico inferior-médio, por sua vez injectados por

pelitos

evaporíticos

da

Formação

de

Dagorda,

que

inclusivamente chegaram a ser explorados, uma vez que as faixas por vezes atingem espessuras decamétricas (a sul de Palmela).

Ao contrário do que acontece com os outros relevos principais do sector oriental da cadeia, que se trata de relevos de resistência, concordantes com a estrutura geológica, no caso

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de Gaiteiros o relevo é simplesmente de resistência. A diferente orientação geral do eixo é explicável pela proximidade à rampa lateral de Setúbal-Pinhal Novo e ao próprio encurvamento cartográfico do cavalgamento que, na sua proximidade, adquire geometria sigmóidal. O maior encurvamento local do cavalgamento de S. Luís a Este da Serra, com forte desvio para Norte até à ribeira de Pai Mouro, encaixada por pequena falha de transferência, prende-se com o facto do cavalgamento se encontrar em situação de patamar e, logo, com a rápida perda de cota da Serra, o mesmo “recuar” acentuadamente até ao alinhamento na base da Serra de Gaiteiros. Assim, apesar de não aflorar a zona axial do anticlinal a sul da Serra de Gaiteiros, estes argumentos, a que se junta a continuidade cartográfica dos conglomerados para o flanco normal do Anticlinal de S. Luís,

não

existem

razões

para

considerar

duas

estruturas

independentes. A estrutura

de

S.

Luís

apresenta

características

geométricas muito semelhantes às do Formosinho, a tecto e a muro do cavalgamento. No tecto, o anticlinal é relativamente amplo e o flanco curto, que não aflora, provavelmente também não terá existido ou a sua dimensão terá sido muito reduzida. A muro, existe um sinclinal muito fechado, o Sinclinal de Rego d’Água, cujo flanco Norte apresenta inversões locais das unidades mais próximas do núcleo: do Paleogénico até o Miocénico médio (MPi – “Arenitos e calcarenitos de Pinhal e Castelo de Palmela”, Serravaliano a Langhiano, in Manuppella et al., 2000). A deformação claramente concentra-se na proximidade da rampa frontal.

Quanto à idade da estrutura de S. Luís, cartograficamente verifica-se que o cavalgamento, a Este, intersecta todas as unidades do Miocénico, incluindo os “Conglomerados de Guarda-Mor” (MGM ibid.), datados do Tortoniano. Nos cortes das ravinas da Flamenga e da carreira de tiro, onde se integra esta unidade, P. Choffat (1908) refere inclinações da ordem dos 5º a 10º para Norte e a ocorrência de blocos do Jurássico superior e calhaus angulosos de dolomitos incorporados nestes conglomerados. Desta forma, os “Conglomerados de Guarda- Mor” corresponderão a depósitos molássicos associados ao cavalgamento e anticlinal de S. Luís, ou seja, é uma unidade sin- tectónica. Estes conglomerados, continentais, são posteriores às “Areias da Quinta da Torre” (MQT), de fácies marinha, que é a unidade miocénica mais recente aflorante no flanco norte de S. Luís; por sua vez, estão subjacentes aos “Depósitos de Ribeira da Lage” (ML in Manuppella, 1999), novamente de fácies marinha, com idade duvidosa entre o Tortoniano superior e o Messiniano. De acordo com as idades presentes na Tabela Estratigráfica da International Commission on Stratigraphy (Gradstein et al., 2004), a segunda fase principal de inversão da bacia Lusitaniana, no sector da Arrábida, terá ocorrido entre os 11,60 e 7,25 M.a., provavelmente mais próximo dos 8 a 7 M.a. (Tortoniano superior).

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